sexta-feira, 27 de março de 2009

Novas do Pedroca

Abril 2009
A mãe tem a brilhante ideia de presenteá-lo com um cubo mágico, imaginando que, por ser dos personagens do ursinho Puff, seria mais fácil montá-lo. Depois de alguns segundos desmontando-o, pensa: –Pronto, vou montar rapidinho. –Hehehe, e aí? Lá vem o Pedro:
– Conseguiu, mamãe?
Bom, melhor não dizer...
– Não, Pedro, agora é com você!
Depois de alguns minutos, um pouco contrariado:
– Mamãe, não tô conseguindo não...
– Ah, Pedro, tem que tentar mais! Por isso chama quebra-cabeça.
Mais alguns minutos:
– Mamãe, cansei de quebrar a minha cabeça. Agora tenho que desquebrar...

.......................

– Mamãe, você sabe o que é serrealizar?
– O quê, Pedro?
– É, serrealizar! É que nem quando eu tô pintando com tinta de verdade. Eu serrealizo. E quando a gente vai pra praia também! A gente não serrealiza?

......................

– Hoje na escolinha eu assisti a Branca de Neve!
– Nossa, verdade? Você ficou com medo da bruxa?
– Fiquei sim, eu não tava preparado pra ver aquela bruxa... Mas eu tava preparado pra ver ela se ferrar!


Março 2009
Pedro: – Mamãe! Eu chamei o Antonio assim: Antooonio! Antooooonio! – bem alto, mas ele não me viu. Acho que eu tô invisível! – Mãe: Claro, Pedro, você esqueceu que comeu gelatina? Ela te deixou assim, invisível. – Pedro: – Hããã! Então eu tenho que comer alguma coisa pra ficar desinvisível... (pensativo.)

Mãe: – Hoje eu sonhei com a sua irmãzinha. Ela era tão bonitinha, bochechuda. Ficava dando risada e balançando as mãozinhas... (Pedro quieto.) E eu sonhei que você tava voando, com a capa do Batman! – Pedro, assanhado: É mesmo, mamãe???

sexta-feira, 6 de março de 2009

Franz Krajcberg. Escultura de chão, cipó e raiz, 1968.

O cacto
Manuel Bandeira

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas [privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.


Entre as estações

Não creio nos espectros que passam pelo meu. Hão de ser lenda, mito, platônicas miragens. Os passos, sim, são reais, ouço-os estalar sobre o asfalto, ruído surdo absorto em buzinas e gritos descarnados vendendo ficção. Vida, a prazo, a cada passo.
Outros passos me passam, ultrapassam, estacionam ao meu lado. Sons agudos de saltos sobre o piso frio, séculos marmóreos condensados em instantes de vidro e labor industrial. Alguns soam aveludados como andar de gato à espreita. Seguem-nos um cheiro redondo de café.
Meus passos me levam ao vagão e num relance entre as estações os olhos invadem meu reflexo na janela escurecida. Quem é o espectro que me fita? O breve instante, devorado pela velocidade, não permite a revelação. A cada chegada e partida novos olhares se revelam na noite iluminada das janelas. E passam. Ao redor resquícios de conversas ecoam vozes já mortas, vindas de bocas que não se abrem sob olhos que não vêem.
Apenas os passos são reais. Não há nada a levar, somente o som que não cessa. Levam-me à escada rolante e o clarão da rua ofusca os olhos repletos de luz artificial. De ouvido busco a trilha das antigas pisadas. Mas a chuva lavou os sons e os rastros. Nas poças chapinham pés de pato que perderam o senso da migração. Só lhes resta o pisar desengonçado de quem não nasceu para o chão.