sexta-feira, 4 de março de 2011

O apanhador de desperdícios
Manuel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Lembrança do mundo antigo


Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em [redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, [pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
 Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Autocrítica do Pedroca

– Eu não sou violento, mas sou bem chato. (Comentando a um senhor no ônibus sua relação com a Yanni.)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Um peixe raro de asas
As águas altas
Um aguado de malva
Sonhando o nada

 H. Hilst, Da morte. Odes mínimas.

A inocência do primeiro dia de aula no 1º ano

      O Pedroca estava ansioso em começar suas aulas. Com o pedido de transferência, as férias dele se prolongaram além da nossa vontade... Mas hoje as aulas voltaram. Escola nova, 1º ano! Acordou cedo sem reclamar. Antes de ele sair com o pai, fui dar um beijo:
– Pedro, este ano você vai aprender a ler. Não vai ser só brincadeira. Tem que prestar atenção na professora...
– Hã hã... (sonolento).
– Então ouve tudo o que ela disser pra aprender, tá?
– Tá. Vou ficar bem esperto, assim (arregala os olhos, ficando meio vesgo).
– Não precisa ficar desse jeito, Pedro! (risos) É só ficar com a cabeça esperta, ligada... Porque depois você vai me contar o que a professora te ensinou.
– Tá.
– Este ano você vai ter lição de casa. E a mamãe vai te ajudar.
– Ebaaaa!!!

Crítica cinematográfica

– Eu achei esse filme (Edward mãos de tesoura) mais bom que aquele da mulher brava (A guerra dos Roses). Eu odeiei aquele filme. Mas se eu sabesse que o menino (Edward) ia ficar sozinho no castelo eu não tinha assistido não... Fiquei triste! Agora vou ter pesadelo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Na casa do vovô



Vô – Lembra, Pedro, quando eu te falei que essa árvore ia ficar toda amarela?
Pedro – Lembro! Mas por que ela ficou assim? Tá fantasiada pro carnaval?