Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Post carnavalesco
– Pedro! Você espalhou gliter pelo chão todo!
– Ah, papai, não reclama... A mamãe vai gostar: o chão tá brilhando!!!
– Ah, papai, não reclama... A mamãe vai gostar: o chão tá brilhando!!!
sábado, 28 de janeiro de 2012
Noturna
Filigrana noturna esta canção do Guinga letrada pelo P C Pinheiro.
Tem a luz breve da dama da noite, brilho entrevado
que esvai feito orvalho
quando o sol espreguiça seus raios,
desfazendo as teias das sombras.
Linda, linda na voz profunda da Monica Salmaso. Gosto mais desta interpretação do que da Leila Pinheiro, que a tinha gravado há muito tempo.
Noturna
(Guinga/ Paulo Cesar Pinheiro
Bem amada
Noturna flor da estrada
Abre os portais da madrugada
Meu corpo
Minha alma
Estão à tua espera
Bem amada
Divina luz raiada
Acorda os sons da passarada
Que a natureza desespera
Porque a beleza é uma quimera
Junto a ti
E a primavera é nada
Fica comigo oh! santa imagem dos vitrais
Das belas catedrais do mar
Pois se chegares indo embora
Eu vou sofrer
Mas sei como fazer para o teu rastro achar
Pelo fulgor que tu desprendes na amplidão
Pelo perfume que tu deixas pelo chão
E com minh'alma me queimando de paixão
Te entregarei meu coração
Tem a luz breve da dama da noite, brilho entrevado
que esvai feito orvalho
quando o sol espreguiça seus raios,
desfazendo as teias das sombras.
Linda, linda na voz profunda da Monica Salmaso. Gosto mais desta interpretação do que da Leila Pinheiro, que a tinha gravado há muito tempo.
Noturna
(Guinga/ Paulo Cesar Pinheiro
Bem amada
Noturna flor da estrada
Abre os portais da madrugada
Meu corpo
Minha alma
Estão à tua espera
Bem amada
Divina luz raiada
Acorda os sons da passarada
Que a natureza desespera
Porque a beleza é uma quimera
Junto a ti
E a primavera é nada
Fica comigo oh! santa imagem dos vitrais
Das belas catedrais do mar
Pois se chegares indo embora
Eu vou sofrer
Mas sei como fazer para o teu rastro achar
Pelo fulgor que tu desprendes na amplidão
Pelo perfume que tu deixas pelo chão
E com minh'alma me queimando de paixão
Te entregarei meu coração
sábado, 5 de novembro de 2011
Super-homem mirim
Eu e o mano Veio estamos numa incumbência urgente: arrumar o chuveiro, enquanto o Pedroca e a Nani brincam de pintar com a prima Lelê. Falo pro Veio, in off: "Vamos de bike pra ir mais rápido na loja de construção aqui perto". De mansinho, vamos saindo pra garagem, mas, surpresa!, lá está o seu Pedroca, devidamente trajado de Super-Homem, já encarapitado na cadeirinha da bike. Tento argumentar:
- Pedro, fica aqui com a sua irmã, senão ela vai chorar.
- Não, quero ir junto.
- Por favor, Pedro a gente vai rapidinho...
- Nada disso. Quero ir também.
Pra evitar tumulto, vamos saindo, quando a Nani ouve o movimento e começa a chorar, querendo ir. Resmungo:
- Tá vendo, Pedro, tadinha. Você fez ela chorar...
- Ah, você sempre faz isso!
- Eu?
- É... Quando você vai trabalhar, ou pra faculdade.
- Mas aí é por uma boa causa, né, Pedro? Você não, só vai pra bagunçar!
- Não, eu não vou pra bagunçar. Vou pra salvar o mundo.
Chegando à casa de construção, ele se encanta com um espelho de luz do Mickey e me pede pra levar. Eu retruco:
- Ah, então você não veio pra salvar o mundo nada. Veio é pra comprar coisas pro seu quarto!
- É! Pro meu esconderijo secreto.
-----------------------------------------
Em nossas incursões de bike pelo bairro, vemos uma cachorrinha linda, corintiana, que me lembra a Pandora. Dou um suspiro:
- Que saudade da Popó, Pedroca...
- É mesmo... - responde o suspiro.
Depois de um breve silêncio, solta essa:
- O mundo podia ter um botão de reiniciar, né, mamãe?
- Pedro, fica aqui com a sua irmã, senão ela vai chorar.
- Não, quero ir junto.
- Por favor, Pedro a gente vai rapidinho...
- Nada disso. Quero ir também.
Pra evitar tumulto, vamos saindo, quando a Nani ouve o movimento e começa a chorar, querendo ir. Resmungo:
- Tá vendo, Pedro, tadinha. Você fez ela chorar...
- Ah, você sempre faz isso!
- Eu?
- É... Quando você vai trabalhar, ou pra faculdade.
- Mas aí é por uma boa causa, né, Pedro? Você não, só vai pra bagunçar!
- Não, eu não vou pra bagunçar. Vou pra salvar o mundo.
Chegando à casa de construção, ele se encanta com um espelho de luz do Mickey e me pede pra levar. Eu retruco:
- Ah, então você não veio pra salvar o mundo nada. Veio é pra comprar coisas pro seu quarto!
- É! Pro meu esconderijo secreto.
-----------------------------------------
Em nossas incursões de bike pelo bairro, vemos uma cachorrinha linda, corintiana, que me lembra a Pandora. Dou um suspiro:
- Que saudade da Popó, Pedroca...
- É mesmo... - responde o suspiro.
Depois de um breve silêncio, solta essa:
- O mundo podia ter um botão de reiniciar, né, mamãe?
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ. DE ARIANA PARA DIONÍSIO
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IX
“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”
Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo
Pensando
Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.
E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata
Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.
X
Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IX
“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”
Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo
Pensando
Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.
E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata
Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.
X
Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Claricices
Come, meu filho (Clarice Lispector)
- O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.
- . . .
- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?
- Chat... raso, quer dizer.
- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?
- Irreal.
- Por que você acha?
- Se diz assim.
- Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?
- Parece.
- Onde foi inventado feijão com arroz?
- Aqui.
- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?
- Aqui.
- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?
- Às vezes.
- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!
- Não.
- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.
- Não fala tanto, come.
- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
- Adivinhou. Come, Paulinho.
- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.
- O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.
- . . .
- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?
- Chat... raso, quer dizer.
- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?
- Irreal.
- Por que você acha?
- Se diz assim.
- Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?
- Parece.
- Onde foi inventado feijão com arroz?
- Aqui.
- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?
- Aqui.
- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?
- Às vezes.
- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!
- Não.
- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.
- Não fala tanto, come.
- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
- Adivinhou. Come, Paulinho.
- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.
sábado, 1 de outubro de 2011
Estavam Pedroca, Yanni e o vovô no parque. A Dona Nani, sapeca que só, já foi tirando as sandálias, rolando na terra, feliz da vida.
O vovô, preocupado:
- Yanni, vamos colocar a sandalinha?
A Yanni, delicadamente, cantarolando:
- Não...
O vô insiste:
- Vamos, coloca a sandália, Yanni.
- Não...
De repente, fiat lux! O vô vê o Buzz Lightyear na mão do Pedroca:
- Olha, Yanni, até o Buzz está com sapatinho. Vamos colocar a sandalinha, que nem ele?
Vem a ansiada resposta:
- Sim!
Dona Nani pega as sandalinhas abandonadas na terra e vem toda pirilampa em direção ao vô e ao Pedroca. Senta-se e... coloca as sandálias no Buzz.
O vovô, preocupado:
- Yanni, vamos colocar a sandalinha?
A Yanni, delicadamente, cantarolando:
- Não...
O vô insiste:
- Vamos, coloca a sandália, Yanni.
- Não...
De repente, fiat lux! O vô vê o Buzz Lightyear na mão do Pedroca:
- Olha, Yanni, até o Buzz está com sapatinho. Vamos colocar a sandalinha, que nem ele?
Vem a ansiada resposta:
- Sim!
Dona Nani pega as sandalinhas abandonadas na terra e vem toda pirilampa em direção ao vô e ao Pedroca. Senta-se e... coloca as sandálias no Buzz.
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