quinta-feira, 15 de março de 2012

Visão de veterano


O Pedro anda todo prosa por ter conquistado o cobiçado título de veterano. Está no 2º ano! No caminho de casa à escola, ele me intima:

– Mamãe, hoje você me liga à tarde? Posso ter alguma coisa muito legal pra te contar!
– Pedro, no meu trabalho não posso falar no telefone, nem com os colegas, não posso ir no banheiro nem tomar café.
– Aff, mamãe!!! Você tá no 1º ano?!

sábado, 3 de março de 2012

Crise criativa

– Pedro, eu coloquei no blog os toques da vida que você deu na Nani.
– Ah não, mamãe. Aquilo não teve a menor graça. Era uma conversa séria.
– Eu achei engraçado.
– Então só você!
– Nada disso. Contei pra Rê e pra Fafá e elas também riram.
– Mas eu não achei graça nenhuma. 

Silêncio de segundos.

– Também, tudo que eu falo você coloca no blog! Agora não tem mais nenhuma piada pra eu contar...
– Hahahaha, você acabou de falar uma, Pedoca. Vou colocar no blog. 
– Rrrrrrrrrr...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Toques da vida

Conversa de sábio irmão mais velho com a pequena no caminho até o ponto de ônibus:


– Nani, vou te dar dois toques da vida.
– ... [Nani mergulhada em profunda meditação diante da boneca da superpoderosa]
– "Apresta" a atenção, Nani. O primeiro toque da vida: quando você é nenê, até 2 anos, você quer pei [mamar no peito]. Depois, você só toma no copinho.
– Não. [sem desviar os olhos da boneca]
– Segundo toque da vida. Nani, tá me ouvindo?
– ...
– Quando você é nenê, você usa fralda. Depois, com 2 anos, você começa a fazer cocô e xixi no penico. Aí, com uns 5 anos, você faz tudo na privada, que nem o Pepê aqui. Entendeu?
–  Nããããão!!!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O sono das águas (Guimarães Rosa)

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos


E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...


Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...


Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Post carnavalesco

–  Pedro! Você espalhou gliter pelo chão todo!
– Ah, papai, não reclama... A mamãe vai gostar: o chão tá brilhando!!!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Noturna

Filigrana noturna esta canção do Guinga letrada pelo P C Pinheiro.

Tem a luz breve da dama da noite, brilho entrevado
que esvai feito orvalho
quando o sol espreguiça seus raios,
desfazendo as teias das sombras.

Linda, linda na voz profunda da Monica Salmaso. Gosto mais desta interpretação do que da Leila Pinheiro, que a tinha gravado há muito tempo.

Noturna
(Guinga/ Paulo Cesar Pinheiro

Bem amada
Noturna flor da estrada
Abre os portais da madrugada
Meu corpo
Minha alma
Estão à tua espera

Bem amada
Divina luz raiada
Acorda os sons da passarada
Que a natureza desespera
Porque a beleza é uma quimera
Junto a ti
E a primavera é nada

Fica comigo oh! santa imagem dos vitrais
Das belas catedrais do mar
Pois se chegares indo embora
Eu vou sofrer
Mas sei como fazer para o teu rastro achar
Pelo fulgor que tu desprendes na amplidão
Pelo perfume que tu deixas pelo chão
E com minh'alma me queimando de paixão
Te entregarei meu coração



sábado, 5 de novembro de 2011

Super-homem mirim

     Eu e o mano Veio estamos numa incumbência urgente: arrumar o chuveiro, enquanto o Pedroca e a Nani brincam de pintar com a prima Lelê. Falo pro Veio, in off: "Vamos de bike pra ir mais rápido na loja de construção aqui perto". De mansinho, vamos saindo pra garagem, mas, surpresa!, lá está o seu Pedroca, devidamente trajado de Super-Homem, já encarapitado na cadeirinha da bike. Tento argumentar:
    - Pedro, fica aqui com a sua irmã, senão ela vai chorar.
    - Não, quero ir junto.
    - Por favor, Pedro a gente vai rapidinho...
    - Nada disso. Quero ir também.
   
    Pra evitar tumulto, vamos saindo, quando a Nani ouve o movimento e começa a chorar, querendo ir. Resmungo:
    - Tá vendo, Pedro, tadinha. Você fez ela chorar...
    - Ah, você sempre faz isso!
    - Eu?
    - É... Quando você vai trabalhar, ou pra faculdade.
    - Mas aí é por uma boa causa, né, Pedro? Você não, só vai pra bagunçar!
    - Não, eu não vou pra bagunçar. Vou pra salvar o mundo.

    Chegando à casa de construção, ele se encanta com um espelho de luz do Mickey e me pede pra levar. Eu retruco:
    - Ah, então você não veio pra salvar o mundo nada. Veio é pra comprar coisas pro seu quarto!
    - É! Pro meu esconderijo secreto.

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    Em nossas incursões de bike pelo bairro, vemos uma cachorrinha linda, corintiana, que me lembra a Pandora. Dou um suspiro:
    - Que saudade da Popó, Pedroca...
    - É mesmo... - responde o suspiro.

    Depois de um breve silêncio, solta essa:
    - O mundo podia ter um botão de reiniciar, né, mamãe?