Riacho de areia, este clássico popular do Vale do Jequitinhonha resgatado pelo saudoso Dércio Marques, é uma canção que me arrebatou desde a primeira vez que a ouvi, num show em algum Sesc da vida, há muitos e muitos anos... Tantos que nem me lembro direito as circunstâncias, tempo, espaço, companhias... É como se tivesse nascido com ela no peito...
Ela já me acompanhou em momentos de angústia, saudade, melancolia, desespero... Também de alegria, amor, beleza, entrega... Me ajudou a voltar a ser rio quando perigava virar pedra... Seguiu comigo no caminho de me tornar canoa... Continua me acompanhando nas travessias à terceira margem, em direção ao grande Mar, La Mar... Pra onde um dia retornarei.
"Vou descendo rio abaixo
Numa coisinha de nada
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de areia"
Riacho de Areia-Beira-Mar, por Dércio Marques (Sr Brasil - 05/04/2012)
sábado, 8 de julho de 2017
Represei sóis e luas com medo de entornar sentidos e pender de vez a balança dos secos e molhados.
Busquei me entorpecer de burburinho diário, tarefas monótonas, ações pulsantes, palavras e cantos pra não ouvir o silêncio grito que desce na distância tecelã de desacontecidos.
Desatar nós dói, na tarde que cai dói mais. Da pele crua difícil se arranca a lembrança. E ao contrário do que deveria, não, não podia. Pra silenciar a mudez da carne, tão quente, tão fria.
Sem planos, promessas, palavras ou presentes. O que anseio também não sei, se compõe em outro tempo-espaço, em um lá, nos campos de névoa e esquecimento.
Sei, sinto, o que preciso é impreciso, vaga no pulso inconstante, nas marés que me navegam.
Sei, sinto, me buscar é preciso e pra isso bússolas são imprecisas.
O rumo no breu sem lua se traça em silêncio por dentro. Meu trabalho é calar e ouvir.
(Tamara Castro, 2017)

Bordado: Enchanting Embroidery - girl on bike by the Sea
Busquei me entorpecer de burburinho diário, tarefas monótonas, ações pulsantes, palavras e cantos pra não ouvir o silêncio grito que desce na distância tecelã de desacontecidos.
Desatar nós dói, na tarde que cai dói mais. Da pele crua difícil se arranca a lembrança. E ao contrário do que deveria, não, não podia. Pra silenciar a mudez da carne, tão quente, tão fria.
Sem planos, promessas, palavras ou presentes. O que anseio também não sei, se compõe em outro tempo-espaço, em um lá, nos campos de névoa e esquecimento.
Sei, sinto, o que preciso é impreciso, vaga no pulso inconstante, nas marés que me navegam.
Sei, sinto, me buscar é preciso e pra isso bússolas são imprecisas.
O rumo no breu sem lua se traça em silêncio por dentro. Meu trabalho é calar e ouvir.
(Tamara Castro, 2017)

Bordado: Enchanting Embroidery - girl on bike by the Sea
"Aqui o caminho se divide
como nas encruzilhadas dos andantes
onde cavalo e cavaleiro paravam
e depois de muito meditar
largavam o passo
escolhendo um horizonte prodigioso.
E hoje existe ainda a procura daquilo
que não pode ser encontrado?
A procura pelo mistério da procura?
As coisas vão ficando simples
à medida que caminhamos para a morte.
E o sonho, meu companheiro de mágoas,
amarelo como um campo de mostarda em abril,
está aberto."
(Neide Archanjo. Quixote, tango e foxtrote.)
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Soneto de Eurydice (Sophia de Mello)
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

quinta-feira, 8 de junho de 2017
Filha de siri...
Nani-siri com uns 3 aninhos. Tínhamos acabado de chegar a Paraty e ela doida pra ir à praia. O dia estava chuvoso e ficamos na preguiça conversando na praça da Matriz, esperando o sol dar as caras. E a Nani, "vamo pa paia, paia, paia, paia...". A gente, "calma, filha, já já vamos..." Passa o tempo e ela não desiste, "paia, paia, paia"... Até que, sem mais, encara uma poça no meio da rua e... tchibum!!!
domingo, 9 de abril de 2017
No caminho
Questionar esse "vencedorismo", pensamento nefasto que nos é impingido desde o berço (ou talvez desde o útero), é, pra muitos, coisa de louco. Mas como diz a canção, "mais louco é quem me diz / e não é feliz". E ser feliz também não é homogêneo, válido pra todos. O que me faz feliz não te faz feliz. A gente vai construindo nossos valores de bem e mal, nossas metas e motes ao longo da travessia. Alguns ficam, fiando o caminho labiríntico. Outros se transformam, se libertam, nos libertam, viram pássaro, saudade, ou pedra, arrependimento, mágoa... Prefiro pensar assim, no caminho, como os peripatéticos. Se a gente carrega coisa demais nos ombros, deixa de ciganar, endurece e emburguesa.
Meu fio de ariadne quem me dá é minha memória menina que me contou meu pai. Quando eu era bem pequena, ele me fez a pergunta inevitável: o que você quer ser quando crescer. E, dizia ele, eu respondi, de imediato: quero ser feliz. É, pai, não é nada fácil. Ser feliz hoje é bem menos - ou bem mais? - que era quando eu tinha 20 anos... Sigo no caminho.
Meu fio de ariadne quem me dá é minha memória menina que me contou meu pai. Quando eu era bem pequena, ele me fez a pergunta inevitável: o que você quer ser quando crescer. E, dizia ele, eu respondi, de imediato: quero ser feliz. É, pai, não é nada fácil. Ser feliz hoje é bem menos - ou bem mais? - que era quando eu tinha 20 anos... Sigo no caminho.
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