segunda-feira, 24 de setembro de 2018

À beira espero enfim
ouvir a voz que a vida toda
cala em mim
na noite escura úmida
diante de um rio-mar.

Talvez seja vã espera.
Talvez ela seja muda.
Talvez sua seja a voz do mar.

Esse mar que contemplo adiante
está distante
mil léguas em mim.

Como me atravessar?

En sino

o pulso a ecoar
do tambor central
para além da própria
sina

A
pele outra
me transpira
e o vário gesta o

UM

Toque

caminho, danço, giro, pulo
tentando verter em mim
o outro
dentre paredes de carne
e osso


roço a pele que me cala
palavras soltas ou tensas
e o máximo que te tenho
é o espelho de um rosto
tênue


disperso
meu medo
e sigo  errância
escuro-claro
de me ser sem
ter
te

Regurgitando Leminski

Ah, Plutão,
essa mania de escavar o chão

ainda há de nos levar além

Líquido

Já que é a memória da pele
o cheiro o sulco
a contração o grito
o que resiste


Já que a nata nada no raso
na pele
no início


Já que o desejo é libélula
de voo curto e raro
peixe de superfície
sem couro para os abismos
E a despedida breve em catracas de metrô
é o que fica

Sejamos breves rasos
ferozes gozos.
Sem amanhã meu barco não atraca
o olhar turista alisa a paisagem
livre de nomes a guardar

Ah, Orfeu,
Que mania de olhar pra trás
A tarde traz sua morte no arrebol
Anoitece no peito a saudade

Não suspira, não lamenta
Canta o instante

E arde

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Agenda

Habitar a carne do dia
Irrigar as veias da aurora com o rubro sumo do instante

Estender no leito das horas o ouro inaugural da manhã

E atravessar a tarde ao tambor pontuado de sombras
anunciando a noite