segunda-feira, 8 de abril de 2019

caracteres sem espaço disputam aos berros
seu espaço entre 80 disparos
palavras fantasmagóricas me apavoram
e a alma que late 
e não morde
morre aos espasmos
claustrofóbica
no ciberespaço

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Aragem


versar - do lat. uersus
abrir sulcos na carne
da terra
arejar a matéria escura

amaciar com saliva
nãos encalacrados
entre os nós dos dedos
ossos do ofício

dentre os orifícios da máscara
que sufoca mas não
cala
verter silêncio em grito
versar gemido em canto

Resultado de imagem para arar a terra

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Manhã de chuva
Origami de folha no pé de orégano 
Grilo temperado



domingo, 18 de novembro de 2018

rios são estrias à flor da terra
como são as nossas
à flor da pele
oculta sob o tecido,
algodão ou asfalto

nossas curvas estriadas
não se calçam em retas
canalizadas
transbordam as marginais
abrigo de répteis e anfíbios

guardiões da outra vida
aquela terceira
margem plantada na travessia
entre as matas ciliares

e colhida apenas no instante da modorra
ao sono da razão
quando sonham os lagartos
e surgem os sacis e as iaras

Consciência negra

Devemos a eles e elas: a cor da pele, o remelexo dos quadris, o tom da música, a ginga na luta, o trabalho agrário, a artesania, a resistência poética. A invenção de uma cultura mestiça forjada no caldeirão de povos desenraizados com extrema violência em nome da cobiça e desumanidade de apenas um, colonizador, autodenominado único civilizado. Mas de quanto estupro, assassinato, pilhagem, ignorância e barbárie é feita a "civilidade" europeia, branca?
Em tempos de esquecimento, não esquecemos. Consciência negra sim. Somos todos filhos e filhas da Mama África.
Tela: Maria Auxiliadora, Capoeira, 1970.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O jardim é um hades
em botão
mil olhos de Cérbero espreitam
olorosos cada quadrante
de verde e luz
E o sol absorto na folha alimenta
a terra reafirmada
do caule à raiz
Cada grão de luz se abriga
no útero da romã que prende
Perséfone em sua morada
noturna
As palavras me andam
causando náuseas
imagens dispersas
vertigem


Elas me levam
      e trazem
ao sabor das marés
seus humores dão o sal
aos meus amores


Não quero mais
palavras
me calem
não
me falem mais


Mas quem sou eu
sem vós
naco de carne
matéria forma
buraco negro
garganta
sem voz