quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Devaneios entre sonho, Rosa e Bergman
Alguém já disse que para fazer arte é preciso certo horror à vida, à vida "como ela é ". O artista é "a menina de lá ", do Guimarães Rosa, uma ponte, uma canoa, ou um tronco semi-enraizado, à beira do abismo, prestes a zarpar. Mas se mantém à terceira margem, entre: o cá e o lá, o que já foi e o que será. É o que talvez jamais seja, a sede que nunca cessa, a flor que mal desabrocha já entrega sua carne d'água ao vento. A criança eterna. O perene vir a ser. A chama que desvela, sem beiras, desejos e medos, utopias e distopias que nunca ousaríamos conceber, mas que latejam dentro, no fundo do fundo infindo. Horrores e maravilhas brotam dos olhos, mãos e boca do artista, a quem seguimos e fugimos encantados, antes de pensar pregá-lo à cruz. Mas ele já vai longe, nos fumos da estrada que não pára.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
Poesia pra respirar em tempos sem trégua
bruma sombra espelho
maya iludida mentira
tudo o que me vestem
os olhos
maya iludida mentira
tudo o que me vestem
os olhos
pedem
a cor inefável
da tua manta
mana Fantasia
da tua manta
mana Fantasia
sem ti cinza insossa
é a Vida
vera carne crua
é a Vida
vera carne crua
destemperada nua
cede ao fogo lento
o banho-maria
cede ao fogo lento
o banho-maria
amainando as pedras
à beira da trilha
florindo as brenhas
sem-vergonhas
Marias
à beira da trilha
florindo as brenhas
sem-vergonhas
Marias
vai-te ao vento vadio
dente de leão banguela
cansado de guerra
dente de leão banguela
cansado de guerra
folha seca
fardo de ouro velho
pesada de antigos verões
mas leve à brisa
fardo de ouro velho
pesada de antigos verões
mas leve à brisa
ciranda
canta tua breve fábula
ora bela na tristeza
da feiura e passa
canta tua breve fábula
ora bela na tristeza
da feiura e passa
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Sobre amor e utopia
O sonho emprenha a vigília.
A realidade se molha, arredonda.
E pare em nós uma linda mestiça
Utopia
nos inspira
e ilumina a trilha.
Bem-vindo esse amor, bem-vindo!
quarta-feira, 3 de julho de 2019
A mulher esqueleto
"A busca moderna pela máquina do movimento perpétuo equivale à busca de uma máquina de amor perpétuo. Não surpreende que as pessoas que tentam amar fiquem confusas e atormentadas e que, como na história dos sapatinhos vermelhos de Hans Christian Andersen, dancem loucamente, incapazes de parar com a agitação frenética, e passem rodopiando direto pelas coisas que, no fundo do coração, elas mais prezam." (Clarissa Pínkola Estés, Mulheres que correm com os lobos - A mulher esqueleto)
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Correndo com os lobos

"Com medo ou não, é um ato de profundo amor o de se permitir ser perturbado pela alma primitiva dos outros. Num mundo em que os seres humanos têm tanto medo da 'perda', existe um excesso de muralhas protetoras contra o mergulho na numinosidade de outra alma humana."
(Clarissa Pínkola Estés, Mulheres que correm com os lobos)
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Canção (Cecília Meireles)
Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...
In Retrato natural
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Crisálida
Pupa meu corpo alma
se cobre de fios tecidos na saliva
de palavras inauditas
Imagens me habitam há tanto
séculos segundos milênios.
Advindas da terra que forma
meus ossos? da água ferrosa que corre
nas veias? do fogo que a faz
bombear pelo corpo
no ritmo do tambor central? do ar
que me inspira?
De onde vêm não sei, nunca saberei.
O fato é que elas me constituem
en-sinam, des-tinam, desatinam.
Sou seu veículo, seu canal.
Se minha boca não dá conta
elas transbordam em choro verso sonho delírio insânia.
Dói senti-las pulsando
sob essa parede mole e viscosa
que se enreda pelos poros, narina, olhos, ouvidos, membros, sexo.
Viram uma segunda pele, me protegem
de sentir sem metáforas
bebo delas, ouço seus sussurros em canto,
ainda que não lhes entenda o sentido de sua fala.
os fios que me atam são tecidos
da saliva marinha desses estranhos seres
sereias.
Estas palavras
não passam de seus perdigotos.
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