quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Por que se negar à tormenta
se a massa revolta venta
e só assim se movimenta?


Quando a calma é tumulto
a turba é onde nos sentimos alma
onde grita o silêncio 
a vida morre inteira 

em cio

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Drummond e a jurubeba teimosa

Era só uma rachadura, solitária e triste, na calçada. Solitária e triste é coisa de gente metida a poeta que bota sentimento em tudo o que vê. Enfim, pros menos melancólicos, era só uma rachadura.

Numa manhã nevoenta, ou talvez ensolarada, sabe lá, neste clima doido da grande sampa, um passarinho inspirado deixou uma fértil contribuição, e na brecha começou a crescer um brotinho.


Claro que os urbanistas amadores, com seu ímpeto em manter tudo devidamente reto, cinza e chato, quiseram arrancar o brotinho. "Posso cortar? É só mato! Vai sujar a calçada". Mas o pezinho teimoso ganhou minha simpatia. Nossas almas roceiras se reconheceram de pronto. "Deixa o mato aí, o que será que será?"

Alguns meses depois, o mato atrevido se revelou um pé de jurubeba. Agora, jovem senhora, já dá flores e frutos, pra festa dos passarinhos!

A jurubeba teimosa "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio", dando vida ao poema do Drummond, mais atual que nunca...
         

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Devaneios entre sonho, Rosa e Bergman

Alguém já disse que para fazer arte é preciso certo horror à vida, à vida "como ela é ". O artista é "a menina de lá ", do Guimarães Rosa, uma ponte, uma canoa, ou um tronco semi-enraizado, à beira do abismo, prestes a zarpar. Mas se mantém à terceira margem, entre: o cá e o lá, o que já foi e o que será. É o que talvez jamais seja, a sede que nunca cessa, a flor que mal desabrocha já entrega sua carne d'água ao vento. A criança eterna. O perene vir a ser. A chama que desvela, sem beiras, desejos e medos, utopias e distopias que nunca ousaríamos conceber, mas que latejam dentro, no fundo do fundo infindo. Horrores e maravilhas brotam dos olhos, mãos e boca do artista, a quem seguimos e fugimos encantados, antes de pensar pregá-lo à cruz. Mas ele já vai longe, nos fumos da estrada que não pára.



quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Poesia pra respirar em tempos sem trégua


bruma sombra espelho
maya iludida mentira
tudo o que me vestem
os olhos
pedem
a cor inefável
da tua manta
mana Fantasia
sem ti cinza insossa
é a Vida
vera carne crua
destemperada nua
cede ao fogo lento
o banho-maria
amainando as pedras
à beira da trilha
florindo as brenhas
sem-vergonhas
Marias
vai-te ao vento vadio
dente de leão banguela
cansado de guerra
folha seca
fardo de ouro velho
pesada de antigos verões
mas leve à brisa
ciranda
canta tua breve fábula
ora bela na tristeza
da feiura e passa

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Sobre amor e utopia

O sonho emprenha a vigília.
A realidade se molha, arredonda.
E pare em nós uma linda mestiça

Utopia
nos inspira
e ilumina a trilha.

Bem-vindo esse amor, bem-vindo!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A mulher esqueleto

"A busca moderna pela máquina do movimento perpétuo equivale à busca de uma máquina de amor perpétuo. Não surpreende que as pessoas que tentam amar fiquem confusas e atormentadas e que, como na história dos sapatinhos vermelhos de Hans Christian Andersen, dancem loucamente, incapazes de parar com a agitação frenética, e passem rodopiando direto pelas coisas que, no fundo do coração, elas mais prezam." (Clarissa Pínkola Estés, Mulheres que correm com os lobos - A mulher esqueleto)

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Correndo com os lobos


Resultado de imagem para mulheres que correm com os lobos


"Com medo ou não, é um ato de profundo amor o de se permitir ser perturbado pela alma primitiva dos outros. Num mundo em que os seres humanos têm tanto medo da 'perda', existe um excesso de muralhas protetoras contra o mergulho na numinosidade de outra alma humana."
(Clarissa Pínkola Estés, Mulheres que correm com os lobos)