segunda-feira, 4 de maio de 2020

À beira

Minha canoa virada na maré cheia espera calada a trilha d’água que a lua alumeia.
Enquanto os grilos parolam, a solidão que busco entre burburinhos dói em semente empedrada no peito. Em canção que não lembro e não esqueço. Marulha nos lençóis sanguíneos desta carne de lenha.
Entre os canais de linfa navego esta sede que não cessa, esse mar desértico que não seca, esse rosto que se mostra-esconde dentre as névoas de um sonho candente.
Espero apesar da desesperança cansada, dessa bandeira desfraldada, desse mar salgado pelas lágrimas de quem ficou à beira. 


Texto: Tamara Castro.
Foto: Canoa Guató à beira da baía Uberaba, Ilha Ínsua, Terra Indígena Guató. Suki Oxaki, 2006. Povos Indígenas do Brasil.

Era alquimia... e eu nem sabia

Um dos meus sonhos de menina era ser alquimista - eu não sabia o nome e dizia que queria ser cientista maluca pra fazer poções coloridas e perfumadas que fumegavam em longos e lindos vidros... Também não sabia que houve um tempo em que as mulheres "cientistas malucas" eram chamadas bruxas e queimadas em fogueiras nada coloridas e perfumadas. Soube disso um pouco mais tarde e também enfrentei minhas fogueiras, como todas nós, mulheres em busca de ser quem somos, de ecoar outras vozes e seguir caminhos não traçados nos mapas da Terra Plana.

"Bruxas eram mulheres empoderadas. 
Insubordinadas.
Livres. 
Que conheciam as ervas, os mistérios da natureza, da vida, da morte. Seu corpo, seu ciclo menstrual, seu poder. 

Muitas não se casavam, preferiam viver na floresta com os animais e suas amigas. Ou sozinhas com suas plantas. 
Recusavam os padrões da normatividade.
As que se casavam certamente não eram submissas a seus companheiros como as mulheres da época. 
Tinham sabedoria da ancestralidade, curavam doenças, dançavam pra lua, contavam histórias. 
Tinham visões, sonhos, intuições. 
Eram mulheres, apenas. 
Foram perseguidas e mortas na idade média no maior feminicídio já visto, por representarem uma ameaça ao patriarcado. Por saberem o que os homens não entendiam.
Associadas a imagens de feias, assustadoras, velhas, solitárias, loucas e principalmente más. 
A caça às bruxas foi possivelmente o início do afastamento das mulheres de sua própria essência.
Por questão de sobrevivência passaram a renegar sua natureza selvagem, se esconder e a ver como amaldiçoado seu corpo de mulher. 
Carregamos a história de todas as mulheres e o fogo da inquisição arde em nós. 
Porém dele renascemos! E estamos a resgatar, dia após dia, lua após lua, nossa força, sabedoria e poder ancestral, que sempre viveu em nós."

Texto: Autoria desconhecida
Ilustração da alquimista Maria, a Judia. Autor: Michael Maier (1568 - 1622), médico, filósofo e alquimista alemão.

terça-feira, 31 de março de 2020

Diálogo familiar em quarentena

Mãe: - Cadê a lista de compras que a gente fez ontem, Nani?
Nani: - Pedro! Você pegou?
Pedro: - Tô falando? Tudo eu nessa casa! Tudo eu! Aposto que quando apareceu o primeiro caso de corona você berrou: Pedro!
Mãe: - Falei assim: esse moleque! Avisei pra ele não comer aquele morcego!

sexta-feira, 27 de março de 2020

Pedra de rio

"Perdido rio De você, ah meu rio Você é meu rio E eu, pedra de rio"

Essa canção da Luli e da Lucina gravada pelo Ney Matogrosso é muito especial pra mim. Desperta o rio sufocado sob o asfalto dos dias. Me traz memórias de menina cavando a terra da minha ruazinha chorona, que, como eu, vertia água a qualquer cutucada - uma manteiga derretida, dizia minha mãe rs.
O Butantã, contam os antigos, era um brejão. São Paulo é uma terra de rios mutilados pelo trem do progresso que retificou suas curvas, cobriu de lixo seu leito e emudeceu sob o asfalto seu canto. Sem ar, sem sol, sem seus verdes cílios, eles sofrem, como pessoas presas no calabouço.

Eu ouço seu choro subcutâneo e sofro junto. Alguns calados, outros caudalosos, sofremos todos. Mas muitos sonhamos resgatar essas vozes silenciadas. Canto pra que esse sonho ecoe os murmúrios d'água e eles venham à tona. Que tenhamos força, coragem e inspiração pra ajudar nossos perdidos rios voltarem a fluir e fazer a alegria de passarinhos, crianças, plantas, peixes, capivaras.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Niilismo x hedonismo na mesa do almoço

- Ué, Yanni, você não vai chorar e gritar "mamãe, olha o Pedro!"???
[Silêncio]
- Que chato... Eu não consigo mais irritar a Yanni... Minha vida perdeu o sentido.
- Se sua vida perdeu o sentido, então se mata.
- Nossa, olha isso, mamãe, que frieza!
[Silêncio]
- Então é assim, Yanni? Se a vida não tem sentido, a pessoa se mata? Você tá recomendando suicídio?
- Ué, 90% das pessoas fazem isso.
- Tá doida? Se fosse assim, a humanidade tinha se exterminado antes do coronavírus!
- Eu acho...
- Yanni, ninguém vê sentido na vida, só se inventa um. A vida não tem sentido.
- Tem sim.
- Ah é? Então qual é o sentido da vida, Yanni?
- Viver.
[Silêncio]
- Nossa, mamãe, a Yanni virou filósofa.
- É isso: o sentido da vida é viver. Viver, amar... e comer. Principalmente comer.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sobre um poema (Herberto Helder)

Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser. Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, - a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo. - Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério. - E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

poeira vento cio
ciando a pele
livres pelos poros
pedra rolada
rio
riso solto calado

estrada
disso tudo nada
preciso
limar palavras gastas
de penso, logo
insisto