Abril 2009
A mãe tem a brilhante ideia de presenteá-lo com um cubo mágico, imaginando que, por ser dos personagens do ursinho Puff, seria mais fácil montá-lo. Depois de alguns segundos desmontando-o, pensa: –Pronto, vou montar rapidinho. –Hehehe, e aí? Lá vem o Pedro:
– Conseguiu, mamãe?
Bom, melhor não dizer...
– Não, Pedro, agora é com você!
Depois de alguns minutos, um pouco contrariado:
– Mamãe, não tô conseguindo não...
– Ah, Pedro, tem que tentar mais! Por isso chama quebra-cabeça.
Mais alguns minutos:
– Mamãe, cansei de quebrar a minha cabeça. Agora tenho que desquebrar...
.......................
– Mamãe, você sabe o que é serrealizar?
– O quê, Pedro?
– É, serrealizar! É que nem quando eu tô pintando com tinta de verdade. Eu serrealizo. E quando a gente vai pra praia também! A gente não serrealiza?
......................
– Hoje na escolinha eu assisti a Branca de Neve!
– Nossa, verdade? Você ficou com medo da bruxa?
– Fiquei sim, eu não tava preparado pra ver aquela bruxa... Mas eu tava preparado pra ver ela se ferrar!
Março 2009
Pedro: – Mamãe! Eu chamei o Antonio assim: Antooonio! Antooooonio! – bem alto, mas ele não me viu. Acho que eu tô invisível! – Mãe: Claro, Pedro, você esqueceu que comeu gelatina? Ela te deixou assim, invisível. – Pedro: – Hããã! Então eu tenho que comer alguma coisa pra ficar desinvisível... (pensativo.)
Mãe: – Hoje eu sonhei com a sua irmãzinha. Ela era tão bonitinha, bochechuda. Ficava dando risada e balançando as mãozinhas... (Pedro quieto.) E eu sonhei que você tava voando, com a capa do Batman! – Pedro, assanhado: É mesmo, mamãe???
sexta-feira, 27 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
Franz Krajcberg. Escultura de chão, cipó e raiz, 1968.O cacto
Manuel Bandeira
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas [privou a cidade de iluminação e energia:
– Era belo, áspero, intratável.
Entre as estações

Não creio nos espectros que passam pelo meu. Hão de ser lenda, mito, platônicas miragens. Os passos, sim, são reais, ouço-os estalar sobre o asfalto, ruído surdo absorto em buzinas e gritos descarnados vendendo ficção. Vida, a prazo, a cada passo.
Outros passos me passam, ultrapassam, estacionam ao meu lado. Sons agudos de saltos sobre o piso frio, séculos marmóreos condensados em instantes de vidro e labor industrial. Alguns soam aveludados como andar de gato à espreita. Seguem-nos um cheiro redondo de café.
Meus passos me levam ao vagão e num relance entre as estações os olhos invadem meu reflexo na janela escurecida. Quem é o espectro que me fita? O breve instante, devorado pela velocidade, não permite a revelação. A cada chegada e partida novos olhares se revelam na noite iluminada das janelas. E passam. Ao redor resquícios de conversas ecoam vozes já mortas, vindas de bocas que não se abrem sob olhos que não vêem.
Apenas os passos são reais. Não há nada a levar, somente o som que não cessa. Levam-me à escada rolante e o clarão da rua ofusca os olhos repletos de luz artificial. De ouvido busco a trilha das antigas pisadas. Mas a chuva lavou os sons e os rastros. Nas poças chapinham pés de pato que perderam o senso da migração. Só lhes resta o pisar desengonçado de quem não nasceu para o chão.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Depois de uma viagem familiar de repouso e diversão, A jangada de pedra tem sido um alento na volta à rotina da cidade de pedra, aço, fumaça e trânsito. Viajar com cinco recém-tornados aventureiros, em uma carroça movida a Dois Cavalos, acompanhados de um cão infernal, pelas brenhas de uma (pen)ínsula ibérica liberta de suas milenares costelas pirineicas, tem dado um sabor ironicamente inusitado às minhas viagens casa-trabalho, trabalho-casa.
Sempre amei livros de viagem, A viagens de Gulliver, Viajando com Charlie, as aventuras da Emília e companhia à Grécia antiga... Queria ser caminhoneira, hehehe, ou andarilha (cientista maluca nas horas vagas), e devorava as aventuras literárias que me faziam sentir o vento batido no rosto.
Função da literatura nos tornar suportável a banalidade do dia a dia? Não sei. Ao contrário, despertar-nos a percepção disso? Sei não.
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"Li uma vez não sei onde que a galáxia a que pertence o nosso sistema solar se dirige para uma constelação de que agora também não me lembra o nome, e essa constelação dirige-se, por sua vez, para um certo ponto do espaço (...), ora reparem, nós aqui vamos andando sobre a península, a península navega sobre o mar, o mar roda com a terra a que pertence, e a terra vai rodando sobre si mesma, e, enquanto roda sobre si mesma, roda também à volta do sol, e o sol também gira sobre si mesmo, e tudo isso junto vai na direção da tal constelação, então o que eu pergunto, se não somos o extremo menor desta cadeia de movimentos dentro de movimentos, o que eu gostaria de saber é o que é que se move dentro de nós e para onde vai, não, não me refiro a lombrigas, micróbios e bactérias, esses vivos que habitam em nós, falo doutra coisa, duma coisa que se mova e que talvez nos mova, como se movem e nos movem constelação, galáxia, sistema solar, sol, terra, mar, península, Dois Cavalos, que nome finalmente tem o que a tudo move, de uma extremidade da cadeia à outra, ou cadeia não existirá e o universo talvez seja um anel, simultaneamente tão delgado que parece só nós, e o que em nós cabe, cabemos nele, e tão grosso que possa conter a máxima dimensão do universo que ele próprio é, que nome tem o que a seguir a nós vem".
Questões de Pedro Orce em A jangada de pedra.
"... enquanto a fogueira dança no ar parado, olham-na pensativamente os viajantes, estendem para ela as mãos como se as impusessem ou ao fogo se rendessem, há um velho mistério nesta relação entre nós e o lume, mesmo com o céu por cima, é como se estivéssemos, ele e nós, no interior da caverna original, gruta ou matriz. (...) não há pressa, a hora é pacífica, quase doce, o luzeiro das chamas perpassa nos rostos tisnados pelo ar livre, têm a cor que neles dá o sol quando nasce, o sol é doutra natureza e está vivo, não morto como a lua, essa é a diferença."
José Saramago. A jangada de pedra.
José Saramago. A jangada de pedra.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
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