segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mais pedroquices (versão do pai)


Psiu... É segredo

– Mas não conta pra ninguém que eu tô usando cinto. Eu não quero ser grande ainda. (Ao estrear seu primeiro cinto.)

................................................................

Ihhh...

– Papai, olha o estádio do meu tênis! (Após ter pisado na lama.)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Yara

Achei este texto lindo no blog http://claricelispector.blogspot.com, que nos dá o prazer indescritível de submergir nas águas de Clarice.

A perigosa Yara

Ao cair de todas as tardes, a Yara, que mora no fundo das águas, surge de dentro delas, magnífica. Com flores aquáticas enfeita então os cabelos negros e brinca com os peixinhos de escapole-escapole. Mas no mês de maio ela aparece ao pôr-do-sol para arranjar noivo.

As mães se preocupam com seus filhos varões, sabedoras de que a Yara quer noivos. Mas para os filhos, Yara é a tentação da aventura, pois há rapazes que gostam de perigo.

À medida que a Yara canta, mais inquietos e atraídos ficam os moços, que, no entanto, não ousam se arriscar.

Sim, mas houve um dia um Tapuia sonhador e arrojado. Pensativamente estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando e que as águas já se amansavam. Foi quando pensou: acho que estou tendo uma ilusão. Porque a morena Yara, de olhos pretos e faiscantes, erguera-se das águas. O Tapuia teve o medo que todo o mundo tem das sereias arriscadas — largou a canoa e correu a abrigar-se na taba. Mas de que adiantava fugir, se o feitiço da Flor das Águas já o enovelara todo? Lembrava-se do fascínio de seu cantarolar e sofria de saudade. A mãe do Tapuia adivinhara o que acontecia com o filho: examinava-o e via nos seus olhos a marca da fingida sereia.

Enquanto isso, Yara, confiante no seu encanto, esperava que o índio tivesse coragem de casar-se com ela. Pois — ainda nesse mês de florido e perfumado maio — o índio fugiu da taba e de seu povo, entrou de canoa no rio. E ficou esperando de coração trêmulo.

Então — então a Yara veio vindo devagar, devagar, abriu os lábios úmidos e cantou suave a sua vitória, pois já sabia que arrastaria o Tapuia para o fundo do rio.

Os dois mergulharam e advinha-se que houve festa no profundo das águas. As águas estavam de superfície tranqüila como se nada tivesse acontecido. De tardinha, aparecia a morena das águas a se enfeitar com rosas e jasmins. Porque um só noivo, ao que parece, não lhe bastava.

Esta história não admite brincadeiras. Que se cuidem certos homens.

In: Clarice Lispector. Como nasceram as estrelas – Doze lendas brasileiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Literatura – pra quê?

Recebi este texto por email da minha cunhadinha e não resisti. Vale muito a pena ler.

Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi

Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br) CAMINHO LIVRE

A cada livro oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto.
"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de Nova Escola: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.


Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais. Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:

- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.

Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.

Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:

- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:

- Sabe ler?, perguntei.

- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:

- Sim. Sei, sim.

- Em que ano você está?

- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.


Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...

- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.

Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.

* os nomes foram trocados para preservar os personagens

Déborah Barbosa

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada." (Clarice Lispector)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Obra-prima

Ninguém como um filho – para nos pôr de cabelo branco, em pé, ou mesmo desprovida dele. Mas também ninguém como um filho para nos tornar os melhores pintores, arquitetos, cantores...
Quase meia-noite de domingo, prestes a virar abóbora, esperando ansiosamente o bolo de laranja amornar para virá-lo no prato e finalmente o Pedro comer um pedaço e dormir. Eis o cenário, imagine o meu humor. rrrrrr

Finalmente, bolo morno, bordas descoladas etc. etc., viro o bolo e... Não, o bolo não quebrou, ufa! Ficou inteirinho, bolo de mãe, enfim...


O Pedroca, que até então não parava de me perguntar se já podia comer um pedaço, parou, extático. Sem exagero, com x (ê, nossa língua!): – Que lindo, mamãe! Nossa, ficou certinho! E olha, ainda tem um redondinho no meio... (e colocava o dedinho no círculo oco do bolo, encantado). Como você conseguiu fazer isso???

Quando ia cortar o bolo, lá veio ele de novo: – Não, mamãe! Vai estragar!

Enquanto relembro mais essa doçura do meu Pedroca, a pequena Yanni brinca de gol com o meu umbigo. Tem coisa melhor para encarar o trânsito das 19 horas em Sampa?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Istérios...
















Mamãe, tem dois gatos muito isteriosos lá na cozinha... Que meeedo!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Novas do Pedroca

Abril 2009
A mãe tem a brilhante ideia de presenteá-lo com um cubo mágico, imaginando que, por ser dos personagens do ursinho Puff, seria mais fácil montá-lo. Depois de alguns segundos desmontando-o, pensa: –Pronto, vou montar rapidinho. –Hehehe, e aí? Lá vem o Pedro:
– Conseguiu, mamãe?
Bom, melhor não dizer...
– Não, Pedro, agora é com você!
Depois de alguns minutos, um pouco contrariado:
– Mamãe, não tô conseguindo não...
– Ah, Pedro, tem que tentar mais! Por isso chama quebra-cabeça.
Mais alguns minutos:
– Mamãe, cansei de quebrar a minha cabeça. Agora tenho que desquebrar...

.......................

– Mamãe, você sabe o que é serrealizar?
– O quê, Pedro?
– É, serrealizar! É que nem quando eu tô pintando com tinta de verdade. Eu serrealizo. E quando a gente vai pra praia também! A gente não serrealiza?

......................

– Hoje na escolinha eu assisti a Branca de Neve!
– Nossa, verdade? Você ficou com medo da bruxa?
– Fiquei sim, eu não tava preparado pra ver aquela bruxa... Mas eu tava preparado pra ver ela se ferrar!


Março 2009
Pedro: – Mamãe! Eu chamei o Antonio assim: Antooonio! Antooooonio! – bem alto, mas ele não me viu. Acho que eu tô invisível! – Mãe: Claro, Pedro, você esqueceu que comeu gelatina? Ela te deixou assim, invisível. – Pedro: – Hããã! Então eu tenho que comer alguma coisa pra ficar desinvisível... (pensativo.)

Mãe: – Hoje eu sonhei com a sua irmãzinha. Ela era tão bonitinha, bochechuda. Ficava dando risada e balançando as mãozinhas... (Pedro quieto.) E eu sonhei que você tava voando, com a capa do Batman! – Pedro, assanhado: É mesmo, mamãe???

sexta-feira, 6 de março de 2009

Franz Krajcberg. Escultura de chão, cipó e raiz, 1968.

O cacto
Manuel Bandeira

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas [privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.