domingo, 6 de junho de 2010

Pra que complicar?

– Mamãe, olha o passarinho que eu desenhei!
– Que legal! Sabe como chama esse passarinho?
– Não...
– Gaivota.
– Hããã... E como eu desenho um passarinho que só chama passarinho?

sábado, 29 de maio de 2010

Orgulho de irmão

– Nossa, Yanni! Tô orgulhoso de você!
– Por que, Pedro? – pergunto.
– Ah, mamãe, ela ficou de pé sozinha! Que orgulho!!!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Acalanto, Elomar Figueira


http://www.radio.uol.com.br/musica/elomar/acalanto/194354?cmpid=clink-rad-ms

Certa vez ouvi contar
Que muito longe daqui
Bem pra lá do São Francisco, ainda pra lá...
Em um castelo encantado,
Morava um triste rei
E uma linda princezinha,
Sempre a sonhar...

Ela sempre demorava
Na janela do castelo
Todo dia à tardinha, a sonhar...
Bem além do seu castelo,
Muito além, ainda mais belo,
Havia um outro reinado,
De um outro rei.

Certo dia a princesinha,
Que vivia a sonhar
Saiu andando sozinha,
Ao luar...

E o castelo encantado
Foi ficando inda prá lá
Caminhando e caminhando,
Sem encontrar.

Contam que essa princezinha
Não parou de caminhar,
E o rei endoideceu,
E na janela do castelo morreu,
Vendo coisas ao luar.

sábado, 15 de maio de 2010

Invental

– Olha, Pedro, que legal! A Dulce deu um avental pra você e outro pra Yanni.
– Pra que isso serve, mamãe?
– Pra pintar, fazer pão com a mamãe, lavar louça... Assim você não suja a roupa, não se molha.


Minutos depois...


– Mamãe, você vai lavar louça?
– Agora não, o papai já lavou.
– Então posso pintar?
– Agora? Tá tarde! A gente vai dormir.
– Ah, mamãe, então quando eu vou usar meu invental???

terça-feira, 11 de maio de 2010

Filosofando

– Mamãe, vai demorar muito pro dia das crianças?
– Ah, vai um pouquinho...
– Mas tá chegando tudo rápido: já foi Páscoa, dia das mães...
– Pedro, antes vai ter festa junina, aniversário do vovô, do papai, da tia Vânia. Aí, vai ser níver da Yanni e do tio Iberê. Depois dia dos pais. Depoooois é que chega o dia das crianças.
– Eba!!! (pulando)
– Aí, vem aniversário do tio Nicolau, da mamãe, Natal e... sabe o quê?
– Não... (cara de sorriso ansioso)
– Aniversário do Pedroca!!!
– Ebaaaaaa!!! Vou fazer 6 anos!
– Isso mesmo!

Silêncio.

–  Mas mamãe, aí eu vou tá grandão, né?
– É...
– Gigante, do tamanho do céu?
– Quase!

Silêncio.

– Vou ficar com saudade de mim.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

 Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
 A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.

E não te mataste, essa é a verdade.
 Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

 O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

 A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los

Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Ferreira Gullar. In: Toda poesia. 11. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.