Eu e o mano Veio estamos numa incumbência urgente: arrumar o chuveiro, enquanto o Pedroca e a Nani brincam de pintar com a prima Lelê. Falo pro Veio, in off: "Vamos de bike pra ir mais rápido na loja de construção aqui perto". De mansinho, vamos saindo pra garagem, mas, surpresa!, lá está o seu Pedroca, devidamente trajado de Super-Homem, já encarapitado na cadeirinha da bike. Tento argumentar:
- Pedro, fica aqui com a sua irmã, senão ela vai chorar.
- Não, quero ir junto.
- Por favor, Pedro a gente vai rapidinho...
- Nada disso. Quero ir também.
Pra evitar tumulto, vamos saindo, quando a Nani ouve o movimento e começa a chorar, querendo ir. Resmungo:
- Tá vendo, Pedro, tadinha. Você fez ela chorar...
- Ah, você sempre faz isso!
- Eu?
- É... Quando você vai trabalhar, ou pra faculdade.
- Mas aí é por uma boa causa, né, Pedro? Você não, só vai pra bagunçar!
- Não, eu não vou pra bagunçar. Vou pra salvar o mundo.
Chegando à casa de construção, ele se encanta com um espelho de luz do Mickey e me pede pra levar. Eu retruco:
- Ah, então você não veio pra salvar o mundo nada. Veio é pra comprar coisas pro seu quarto!
- É! Pro meu esconderijo secreto.
-----------------------------------------
Em nossas incursões de bike pelo bairro, vemos uma cachorrinha linda, corintiana, que me lembra a Pandora. Dou um suspiro:
- Que saudade da Popó, Pedroca...
- É mesmo... - responde o suspiro.
Depois de um breve silêncio, solta essa:
- O mundo podia ter um botão de reiniciar, né, mamãe?
sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ. DE ARIANA PARA DIONÍSIO
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IX
“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”
Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo
Pensando
Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.
E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata
Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.
X
Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
IX
“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”
Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo
Pensando
Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.
E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata
Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.
X
Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Claricices
Come, meu filho (Clarice Lispector)
- O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.
- . . .
- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?
- Chat... raso, quer dizer.
- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?
- Irreal.
- Por que você acha?
- Se diz assim.
- Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?
- Parece.
- Onde foi inventado feijão com arroz?
- Aqui.
- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?
- Aqui.
- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?
- Às vezes.
- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!
- Não.
- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.
- Não fala tanto, come.
- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
- Adivinhou. Come, Paulinho.
- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.
- O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.
- . . .
- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?
- Chat... raso, quer dizer.
- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?
- Irreal.
- Por que você acha?
- Se diz assim.
- Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?
- Parece.
- Onde foi inventado feijão com arroz?
- Aqui.
- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?
- Aqui.
- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?
- Às vezes.
- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!
- Não.
- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.
- Não fala tanto, come.
- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
- Adivinhou. Come, Paulinho.
- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.
sábado, 1 de outubro de 2011
Estavam Pedroca, Yanni e o vovô no parque. A Dona Nani, sapeca que só, já foi tirando as sandálias, rolando na terra, feliz da vida.
O vovô, preocupado:
- Yanni, vamos colocar a sandalinha?
A Yanni, delicadamente, cantarolando:
- Não...
O vô insiste:
- Vamos, coloca a sandália, Yanni.
- Não...
De repente, fiat lux! O vô vê o Buzz Lightyear na mão do Pedroca:
- Olha, Yanni, até o Buzz está com sapatinho. Vamos colocar a sandalinha, que nem ele?
Vem a ansiada resposta:
- Sim!
Dona Nani pega as sandalinhas abandonadas na terra e vem toda pirilampa em direção ao vô e ao Pedroca. Senta-se e... coloca as sandálias no Buzz.
O vovô, preocupado:
- Yanni, vamos colocar a sandalinha?
A Yanni, delicadamente, cantarolando:
- Não...
O vô insiste:
- Vamos, coloca a sandália, Yanni.
- Não...
De repente, fiat lux! O vô vê o Buzz Lightyear na mão do Pedroca:
- Olha, Yanni, até o Buzz está com sapatinho. Vamos colocar a sandalinha, que nem ele?
Vem a ansiada resposta:
- Sim!
Dona Nani pega as sandalinhas abandonadas na terra e vem toda pirilampa em direção ao vô e ao Pedroca. Senta-se e... coloca as sandálias no Buzz.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Mãe da Manhã (Gilberto Gil)
meu canto na escuridão
minha voz, meu amparo
aro de luz nascente do dia
brota na gruta da dor
mãe da manhã, de tudo eu faria
pra conservar vosso amor
a cada ano, uma romaria
uma oferenda, uma prenda, uma flor
a cada instante, um grão de alegria
lembranças do vosso amor
Santa Virgem Maria
vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia
abençoai minha voz, meu cantar
na escuridão dessa nostalgia
dai-nos a luz do luar
meu canto na escuridão
minha voz, meu amparo
aro de luz nascente do dia
brota na gruta da dor
mãe da manhã, de tudo eu faria
pra conservar vosso amor
a cada ano, uma romaria
uma oferenda, uma prenda, uma flor
a cada instante, um grão de alegria
lembranças do vosso amor
Santa Virgem Maria
vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia
abençoai minha voz, meu cantar
na escuridão dessa nostalgia
dai-nos a luz do luar
domingo, 18 de setembro de 2011
Agora sim, intindi!
A mãe na sala, lixando unha. Vem a dona Yanni:
- Quiisso, mamãe?
- É lixa.
- Lixa?
Segundos depois...
- Quiiso, mamãe?
- Lixa, Yanni.
- Lixa?
Mais alguns instantes...
- Quiiso?
- É lixa, Yanni!
- Ahhh... lixa! Intindi!
Após pausa dramática, dando o devido espaço para os risos da plateia, lá vem ela de novo, estendendo as mãozinhas:
- Eu também.
- Quiisso, mamãe?
- É lixa.
- Lixa?
Segundos depois...
- Quiiso, mamãe?
- Lixa, Yanni.
- Lixa?
Mais alguns instantes...
- Quiiso?
- É lixa, Yanni!
- Ahhh... lixa! Intindi!
Após pausa dramática, dando o devido espaço para os risos da plateia, lá vem ela de novo, estendendo as mãozinhas:
- Eu também.
Tá explicado
Comentário do Pedroca sobre mais uma propaganda ridícula Polishop, em que seres supersarados ficam sobre um aparelho, Energym Turbo, estremelicando seus músculos:
- Aff, as pessoas devem ficar com dor de barriga, né?
- Por que, Pedroca?
- Ah, fica tudo tremendo... Por isso que chama É merdim!
- Aff, as pessoas devem ficar com dor de barriga, né?
- Por que, Pedroca?
- Ah, fica tudo tremendo... Por isso que chama É merdim!
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