quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ancestralidade

Conversa recente do Pedroca com vovô José.
Vô: - Pedro, um dia desses vou te contar sobre a história da minha família, meus avós, bisavós...
Aquilo que me contaram e de que me lembro.
Pedro: - Ah, que bom, vovô! Eu tô mesmo precisando saber mais sobre os homens das cavernas!


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Caminhando e plantando que aqui tudo dá...



História do Brasil

A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias,
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muito,
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais
Diamantes tem à vontade
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca,
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora daqui.

MENDES, Murilo. Murilo Mendes — Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

domingo, 16 de outubro de 2016

Sempre tem outro jeito de ver... (ainda bem!)

                                                  Laerte, 1982.

Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio.

Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

(Oswald de Andrade)

terça-feira, 27 de setembro de 2016



na túmida concha-coral
o caracol
inunda o silêncio
em sol

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ai de ti, Copacabana! (Rubem Braga)

1. Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite. 
3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia. 
4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.
5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.
6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.
7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska. 
8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.
9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.
10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação. 
11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.
12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.
15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
16. Antes de te perder eu agravarei tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.
18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas. 
19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.
20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará. 
21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.
22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!
Rio de Janeiro, 1958.
Imagem: Romanelli, Iemanjá, 2012 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016


Beco do Sócrates, ilustração de João do Couto

Becos de Goiás (Cora Coralina)

Beco da minha terra... 
Amo tua paisagem triste, ausente e suja. 
Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. 
Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 
E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, 
e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, 
calçando de ouro a sandália velha, 
jogada no teu monturo. 

Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 
descendo de quintais escusos 
sem pressa, 
e se sumindo depressa na brecha de um velho cano. 
Amo a avenca delicada que renasce 
na frincha de teus muros empenados, 
e a plantinha desvalida, de caule mole 
que se defende, viceja e floresce 
no agasalho de tua sombra úmida e calada. 

Amo esses burros-de-lenha 
que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 
secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados. 
Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,
no range-range das cangalhas. 

E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja. 
Sem infância, sem idade. 
Franzino, maltrapilho, 
pequeno para ser homem, 
forte para ser criança. 
Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade. 

Amo e canto com ternura 
todo o errado da minha terra. 

Becos da minha terra, 
discriminados e humildes, 
lembrando passadas eras... 
Beco do Cisco. 
Beco do Cotovelo. 
Beco do Antônio Gomes. 
Beco das Taquaras. 
Beco do Seminário. 
Bequinho da Escola. 
Beco do Ouro Fino. 
Beco da Cachoeira Grande. 
Beco da Calabrote. 
Beco do Mingu. 
Beco da Vila Rica... 

Conto a estória dos becos, 
dos becos da minha terra, 
suspeitos... mal-afamados 
onde família de conceito não passava. 
“Lugar de gentinha” – diziam, virando a cara. 
De gente do pote d’água. 
De gente de pé no chão. 
Becos de mulher perdida. 
Becos de mulheres da vida. 
Renegadas, confinadas 
na sombra triste do beco. 

Quarto de porta e janela. 
Prostituta anemiada, 
solitária, hética, engalicada, 
tossindo, escarrando sangue 
na umidade suja do beco. 

Becos mal assombrados. 
Becos de assombração... 
Altas horas, mortas horas... 
Capitão-mor – alma penada, 
terror dos soldados, castigado nas armas. 
Capitão-mor, alma penada, 
num cavalo ferrado, 
chispando fogo, 
descendo e subindo o beco, 
comandando o quadrado – feixe de varas... 
Arrastando espada, tinindo esporas... 

Mulher-dama. Mulheres da vida, 
perdidas, 
começavam em boas casas, depois, 
baixavam pra o beco. 
Queriam alegria. Faziam bailaricos. 
– Baile Sifilítico – era ele assim chamado. 
O delegado-chefe de Polícia – brabeza –
dava em cima... 
Mandava sem dó, na peia. 
No dia seguinte, coitadas, 
cabeça raspada a navalha, 
obrigadas a capinar o Largo do Chafariz, 
na frente da Cadeia. 

Becos da minha terra... 
Becos de assombração. 
Românticos, pecaminosos... 
Têm poesia e têm drama. 
O drama da mulher da vida, antiga, 
humilhada, malsinada. 
Meretriz venérea, 
desprezada, mesentérica, exangue. 
Cabeça raspada a navalha, 
castigada a palmatória, 
capinando o largo, 
chorando. Golfando sangue. 

(ÚLTIMO ATO) 
Um irmão vicentino comparece. 
Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 
Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente. 
Uma estação permanente de repouso – no aprazível São Miguel. 
Cai o pano.


Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Corumbá revisitada




A cidade ainda não acordou. O silêncio do lado de fora é mais espesso. Dobrados sobre os escuros dormem os girassóis. Eu estou atoando nas ruas moda moscas sem tino. O sol ainda vem escorado por bando de andorinhas. Procuro um trilheiro de cabras que antes me levava a um porto de pescadores. Desço pelo trilheiro. Me escorrego nas pedras ainda orvalhadas. Passa por mim uma brisa com asas de garças. As garças estão a descer para as margens do rio. O rio está bufando de cheio. Há bugios ainda nas árvores ribeirinhas. Logo os bugios subirão para as árvores da cidade. O rio está esticado de rãs até os joelhos. Chego no porto dos pescadores. Há canoas embicadas e mulheres destripando peixes. Ao lado os meninos brincam de cangapés. Das pedras ainda não sumiram os orvalhos. Batelões mascateiros balançam nas águas do rio. Procuro meus vestígios nestas areias. Eu bem recebia as pétalas do sol em mim. Queria saber o sonho daquelas garças à margem do rio. Mas não foi possível. Agora não quero saber mais nada, só quero aperfeiçoar o que não sei.

(Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros)