quarta-feira, 8 de maio de 2019

Crisálida

Pupa meu corpo alma se cobre de fios tecidos na saliva de palavras inauditas Imagens me habitam há tanto séculos segundos milênios. Advindas da terra que forma meus ossos? da água ferrosa que corre nas veias? do fogo que a faz bombear pelo corpo no ritmo do tambor central? do ar que me inspira? De onde vêm não sei, nunca saberei. O fato é que elas me constituem en-sinam, des-tinam, desatinam. Sou seu veículo, seu canal. Se minha boca não dá conta elas transbordam em choro verso sonho delírio insânia.

Dói senti-las pulsando sob essa parede mole e viscosa que se enreda pelos poros, narina, olhos, ouvidos, membros, sexo.
Viram uma segunda pele, me protegem de sentir sem metáforas bebo delas, ouço seus sussurros em canto,
ainda que não lhes entenda o sentido de sua fala.

Ulisses às avessas
os fios que me atam são tecidos da saliva marinha desses estranhos seres sereias.

Estas palavras não passam de seus perdigotos.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

caracteres sem espaço disputam aos berros
seu espaço entre 80 disparos
palavras fantasmagóricas me apavoram
e a alma que late 
e não morde
morre aos espasmos
claustrofóbica
no ciberespaço

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Aragem


versar - do lat. uersus
abrir sulcos na carne
da terra
arejar a matéria escura

amaciar com saliva
nãos encalacrados
entre os nós dos dedos
ossos do ofício

dentre os orifícios da máscara
que sufoca mas não
cala
verter silêncio em grito
versar gemido em canto

Resultado de imagem para arar a terra

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Manhã de chuva
Origami de folha no pé de orégano 
Grilo temperado



domingo, 18 de novembro de 2018

rios são estrias à flor da terra
como são as nossas
à flor da pele
oculta sob o tecido,
algodão ou asfalto

nossas curvas estriadas
não se calçam em retas
canalizadas
transbordam as marginais
abrigo de répteis e anfíbios

guardiões da outra vida
aquela terceira
margem plantada na travessia
entre as matas ciliares

e colhida apenas no instante da modorra
ao sono da razão
quando sonham os lagartos
e surgem os sacis e as iaras

Consciência negra

Devemos a eles e elas: a cor da pele, o remelexo dos quadris, o tom da música, a ginga na luta, o trabalho agrário, a artesania, a resistência poética. A invenção de uma cultura mestiça forjada no caldeirão de povos desenraizados com extrema violência em nome da cobiça e desumanidade de apenas um, colonizador, autodenominado único civilizado. Mas de quanto estupro, assassinato, pilhagem, ignorância e barbárie é feita a "civilidade" europeia, branca?
Em tempos de esquecimento, não esquecemos. Consciência negra sim. Somos todos filhos e filhas da Mama África.
Tela: Maria Auxiliadora, Capoeira, 1970.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O jardim é um hades
em botão
mil olhos de Cérbero espreitam
olorosos cada quadrante
de verde e luz
E o sol absorto na folha alimenta
a terra reafirmada
do caule à raiz
Cada grão de luz se abriga
no útero da romã que prende
Perséfone em sua morada
noturna