Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
In: Claro enigma, 1951.
Imagem: Juan Romero
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
"Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de insecto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima"
Era só uma rachadura, solitária e triste, na calçada. Solitária e triste é coisa de gente metida a poeta que bota sentimento em tudo o que vê. Enfim, pros menos melancólicos, era só uma rachadura.
Numa manhã nevoenta, ou talvez ensolarada, sabe lá, neste clima doido da grande sampa, um passarinho inspirado deixou uma fértil contribuição, e na brecha começou a crescer um brotinho. Claro que os urbanistas amadores, com seu ímpeto em manter tudo devidamente reto, cinza e chato, quiseram arrancar o brotinho. "Posso cortar? É só mato! Vai sujar a calçada". Mas o pezinho teimoso ganhou minha simpatia. Nossas almas roceiras se reconheceram de pronto. "Deixa o mato aí, o que será que será?" Alguns meses depois, o mato atrevido se revelou um pé de jurubeba. Agora, jovem senhora, já dá flores e frutos, pra festa dos passarinhos! A jurubeba teimosa "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio", dando vida ao poema do Drummond, mais atual que nunca...
Alguém já disse que para fazer arte é preciso certo horror à vida, à vida "como ela é ". O artista é "a menina de lá ", do Guimarães Rosa, uma ponte, uma canoa, ou um tronco semi-enraizado, à beira do abismo, prestes a zarpar. Mas se mantém à terceira margem, entre: o cá e o lá, o que já foi e o que será. É o que talvez jamais seja, a sede que nunca cessa, a flor que mal desabrocha já entrega sua carne d'água ao vento. A criança eterna. O perene vir a ser. A chama que desvela, sem beiras, desejos e medos, utopias e distopias que nunca ousaríamos conceber, mas que latejam dentro, no fundo do fundo infindo. Horrores e maravilhas brotam dos olhos, mãos e boca do artista, a quem seguimos e fugimos encantados, antes de pensar pregá-lo à cruz. Mas ele já vai longe, nos fumos da estrada que não pára.