"Perdido rio
De você, ah meu rio
Você é meu rio
E eu, pedra de rio"
Essa canção da Luli e da Lucina gravada pelo Ney Matogrosso é muito especial pra mim. Desperta o rio sufocado sob o asfalto dos dias. Me traz memórias de menina cavando a terra da minha ruazinha chorona, que, como eu, vertia água a qualquer cutucada - uma manteiga derretida, dizia minha mãe rs.
O Butantã, contam os antigos, era um brejão. São Paulo é uma terra de rios mutilados pelo trem do progresso que retificou suas curvas, cobriu de lixo seu leito e emudeceu sob o asfalto seu canto. Sem ar, sem sol, sem seus verdes cílios, eles sofrem, como pessoas presas no calabouço.
Eu ouço seu choro subcutâneo e sofro junto. Alguns calados, outros caudalosos, sofremos todos. Mas muitos sonhamos resgatar essas vozes silenciadas. Canto pra que esse sonho ecoe os murmúrios d'água e eles venham à tona. Que tenhamos força, coragem e inspiração pra ajudar nossos perdidos rios voltarem a fluir e fazer a alegria de passarinhos, crianças, plantas, peixes, capivaras.
- Ué, Yanni, você não vai chorar e gritar "mamãe, olha o Pedro!"???
[Silêncio]
- Que chato... Eu não consigo mais irritar a Yanni... Minha vida perdeu o sentido.
- Se sua vida perdeu o sentido, então se mata.
- Nossa, olha isso, mamãe, que frieza!
[Silêncio]
- Então é assim, Yanni? Se a vida não tem sentido, a pessoa se mata? Você tá recomendando suicídio?
- Ué, 90% das pessoas fazem isso.
- Tá doida? Se fosse assim, a humanidade tinha se exterminado antes do coronavírus!
- Eu acho...
- Yanni, ninguém vê sentido na vida, só se inventa um. A vida não tem sentido.
- Tem sim.
- Ah é? Então qual é o sentido da vida, Yanni?
- Viver.
[Silêncio]
- Nossa, mamãe, a Yanni virou filósofa.
- É isso: o sentido da vida é viver. Viver, amar... e comer. Principalmente comer.
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
In: Claro enigma, 1951.
Imagem: Juan Romero
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
"Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de insecto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima"