quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Não devia ser "de vez em sempre"?

De vez em quando a gente precisa:

  • tomar umas
  • dançar
  • namorar
  • conversar com migs
  • passear sem tempo de voltar
  • devanear
  • escrever
  • ler poesia
  • cantar no chuveiro
  • brincar na chuva
  • rolar na areia
  • fazer nada.

Por que será que só sobra de vez em quando pro que é essencial?

Viagem ou jornada?

 

Viagem é a caminhada sem fim predeterminado, sem objetivos definidos. É um pisar no chão em ritmo pessoal, aberto ao devaneio, ao sonhar acordado, livre da tirania do relógio, da cobrança de ser produtivo.

Jornada, do latim diurnus, é o "caminho que se pode percorrer em um dia", lembra a etimologia, memória das palavras. É o percurso produtivo, diurno, regido pelo Chronos e pela necessidade de prestar contas ao padrão e ao patrão.

Não à toa o discurso corporativo se incomoda com viagens, reais ou astrais. Elas não cabem ao/à homo/mulier produtivus, que deve vender sua força e tempo de vida para ter direito a consumir e pagar seus tributos e os devidos juros ao capital, como todo/a homem/mulher "de bem". De modo que ter tempo livre para simplesmente caminhar ao léu não é desejável nem respeitável. A escolha de palavras sempre revela uma intenção, consciente ou não.


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Oriente-se

 

lendas vindas
das terras lindas
de orientes findos
me façam feliz
feito a vida não faz

Paulo Leminski

Imagem: Yume (夢), Sonhos, de Akira Kurosawa





domingo, 23 de agosto de 2020

Labirinto-corpo

 Escreve com o coração na ponta dos dedos. Quando o pulso tá calado, perdido nos labirintos deste corpo, o que você sente? Que palavra te ressoa?

O corpo fala, fala, corpo? Te habitam mil, oito mil seres. Infinitas presenças correm sanguíneas vindas de outras vidas e se apresentam neste corpo, neste tempo. Breve presente que se desembrulha em outras formas, origami.
Onde está o pulso? Tateia e não ouve, mas sente o grito latente, em ondas, prestes a emergir do poço.



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ser quem se é


"... ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas"
(Clarissa P. Estés, "Vasalisa, a sabida", in Mulheres que correm com lobos)

Leonora Carrington - The Guardian of the Egg
Tela: Leonora Carrington, The Guardian of the Egg

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Deambulações oblíquas, António Ramos Rosa

É porque nos decepcionamos
que procuramos a perfeição
O símbolo é o arco que abarca a totalidade
e por ele nós podemos alcançar
o que está do outro lado dela
A transcendência do que não vemos
a outra face do todo
é uma perspectiva simbólica
inerente à imediata presença
da face que estamos vendo
Assim o que vemos e o que não vemos
no objecto que estamos olhando
é a coisa em si que o animal não apreende
Não somos nunca o que está diante e separado
o que representa e o representado
em separada oposição
de ideia e objecto
de consciência e corpo
O que em nós está separado
em espírito e em corpo
está ao mesmo tempo unido
numa tensão oblíqua
que nos insere no mundo
E como seres simbólicos
e como seres-no-mundo
somos o que já somos
somos o que ainda não somos

 António Ramos Rosa, in Deambulações oblíquas, 2001

terça-feira, 19 de maio de 2020

La mujer tejedora


"La mujer tejedora está muy presente en tus libros para reflexionar en torno al lugar de la mujer en el mundo andino. ¿Para que te sirve?
Es una gran metáfora de la interculturalidad. Las mujeres siempre tejen relaciones con el otro, con lo otro. Con lo salvaje, con lo silvestre, con el mercado, con el mundo dominante. Siento que hay una capacidad de las mujeres de elaborar relaciones de interculturalidad a través del tejido. Es un reconocer también que el cuerpo tiene sus modos de conocimiento. Aquí, en el colectivo, decimos que 'la mano sabe'." Entrevista com Silvia Rivera Cusicanqui: “Tenemos que producir pensamiento a partir de lo cotidiano” Tela de Rozy Pereza, La mujer tejedora