quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Oriente-se

 

lendas vindas
das terras lindas
de orientes findos
me façam feliz
feito a vida não faz

Paulo Leminski

Imagem: Yume (夢), Sonhos, de Akira Kurosawa





domingo, 23 de agosto de 2020

Labirinto-corpo

 Escreve com o coração na ponta dos dedos. Quando o pulso tá calado, perdido nos labirintos deste corpo, o que você sente? Que palavra te ressoa?

O corpo fala, fala, corpo? Te habitam mil, oito mil seres. Infinitas presenças correm sanguíneas vindas de outras vidas e se apresentam neste corpo, neste tempo. Breve presente que se desembrulha em outras formas, origami.
Onde está o pulso? Tateia e não ouve, mas sente o grito latente, em ondas, prestes a emergir do poço.



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ser quem se é


"... ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas"
(Clarissa P. Estés, "Vasalisa, a sabida", in Mulheres que correm com lobos)

Leonora Carrington - The Guardian of the Egg
Tela: Leonora Carrington, The Guardian of the Egg

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Deambulações oblíquas, António Ramos Rosa

É porque nos decepcionamos
que procuramos a perfeição
O símbolo é o arco que abarca a totalidade
e por ele nós podemos alcançar
o que está do outro lado dela
A transcendência do que não vemos
a outra face do todo
é uma perspectiva simbólica
inerente à imediata presença
da face que estamos vendo
Assim o que vemos e o que não vemos
no objecto que estamos olhando
é a coisa em si que o animal não apreende
Não somos nunca o que está diante e separado
o que representa e o representado
em separada oposição
de ideia e objecto
de consciência e corpo
O que em nós está separado
em espírito e em corpo
está ao mesmo tempo unido
numa tensão oblíqua
que nos insere no mundo
E como seres simbólicos
e como seres-no-mundo
somos o que já somos
somos o que ainda não somos

 António Ramos Rosa, in Deambulações oblíquas, 2001

terça-feira, 19 de maio de 2020

La mujer tejedora


"La mujer tejedora está muy presente en tus libros para reflexionar en torno al lugar de la mujer en el mundo andino. ¿Para que te sirve?
Es una gran metáfora de la interculturalidad. Las mujeres siempre tejen relaciones con el otro, con lo otro. Con lo salvaje, con lo silvestre, con el mercado, con el mundo dominante. Siento que hay una capacidad de las mujeres de elaborar relaciones de interculturalidad a través del tejido. Es un reconocer también que el cuerpo tiene sus modos de conocimiento. Aquí, en el colectivo, decimos que 'la mano sabe'." Entrevista com Silvia Rivera Cusicanqui: “Tenemos que producir pensamiento a partir de lo cotidiano” Tela de Rozy Pereza, La mujer tejedora

quinta-feira, 14 de maio de 2020

La mar

que o mar me tome barca à beira desembarque de mim cantos de espera m'água encharque meu tronco vento inspire minhas velas com sede de velejar

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Poesia é meu sal

"Tudo que não invento é falso", diz Manoel de Barros. E eu sigo com ele. Só a invenção nos salva do silencioso desespero. Só a ficção nos permite transbordar as paredes de carne e osso. Só a arte nos impulsiona a abandonar cansados portos e navegar. Só a poesia nos faz ouvir a música subcutânea e transformar grito em canto. Só a dança nos faz ultrapassar as ilusórias paredes que te separam de mim e nos resgata ao um. Só o amor nos faz delirar e ir além.