domingo, 22 de novembro de 2015

"Antes de tudo sentir e ver. E quando em vez de ver se passa a olhar, acendem-se luzes raras e tudo adquire voz. Assim, descobri, de repente, num segundo fulgurante, que existe uma Dança das Árvores. Não são todas as que conhecem o segredo de bailar no vento. Mas as que possuem tal graça organizam rondas de folhas rápidas, de ramas, de brotos, em torno de seu próprio tronco estremecido. E é todo um ritmo que se cria nas frondes; ritmo ascendente e inquieto, com encrespamentos e retornos de ondas, com pausas brancas, respiros, vencimentos, que se alvoroçam e viram torvelinho, de repente, numa música prodigiosa do verde. Não há nada mais bonito que a dança de um maciço de bambus na brisa. Nenhuma coreografia humana tem a eurritimia de uma rama que se desenha sobre o céu. Chego a me perguntar às vezes se as formas superiores da emoção estética não consistiriam, simplesmente, num supremo entendimento do criado. Um dia, os homens descobrirão um alfabeto nos olhos das caledônias, nos veludos pardos da falena, e então se saberá com assombro que cada caracol manchado era, desde sempre, um poema."
Alejo Carpentier, Os passos perdidos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Assistindo à Viagem de Chihiro, o Pedro comenta:
- Puxa, mamãe, esse personagem no início era bonzinho, agora tá fazendo um monte de maldade. E essa Bruxa, que parecia tão má, até que não é não...
Depois de um tempo:
- Mamãe, você é do bem?
Eu, na cara de pau:
- Claro, Pedro!
Aí ele retruca:
- Não é não... Às vezes você é do mal... Eu também sou às vezes do mal, às vezes do bem... Todo mundo é assim, né, mamãe?

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Por que não flor?

- Mamãe, por que trabalho chama trabalho?
- Boa pergunta, Nani... - respondo após alguns segundos de boca aberta.
- Não podia chamar flor? Ou janela? Ou gelatina...
- É verdade! Aí eu ia dizer: já tô indo florir. Vou lá pra minha flor... Gostei!
- É... Ou ia dizer: vou janelar hoje! Ou: tô indo gelatinar! Fui!