sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ser ou não um limão...

Acordo o Tao na madruga e ele me diz: sente e aquieta para perceber: o que o mundo te apresenta e o que tu fazes diante disso?

Como ensina o senso comum, se a vida te dá um limão, você senta e chora ou faz dele limonada? Qual será a minha escolha? Como ajo e reajo aos limões que a vida me atira? 

O limão é o fato: concreto, real, incontornável. Parafraseando Drummond em “Nosso tempo”, são tão fortes os limões! Mas eu não sou limão e me revolto. Ou sou?

Não posso transformar meu limão em laranja ou morango. Mas posso diante dele me reflessentir, ou me sentipensar, como diria Galeano, e talvez mudar a mim. Por que o limão me causa tal sensação, tal emoção? Haveria outra forma de (re)agir a ele? O que me faria menos infeliz, ou quem sabe, com sorte, mais feliz: ignorar o limão? Tampar o nariz e cair de boca? Desbanalizar a limonada com um pouco de hortelã? Filosofar com sua cara azeda, a la Macbeth: chupar ou não chupar, eis o limão? Transformá-lo em bola e malabalizar com ele?

Não é no que o mundo me apresenta como faticidade, mas sim no que faço com isso é que vive minha pequena cota de liberdade e minha estreita possibilidade de transcendência.


Ah, limões, limões, eis as questões!



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Labiríntico

Viver é andar por planícies e precipícios, multidões silenciosas e desertos ruidosos. Entre toques e pausas, a melodia se faz mais rica e suingada se a gente aprende a dançar com ela, no ritmo de cada pancada, respirando entre as pausas. Essa é a lição que o tambor me dá, na “gravidade das pequenas coisas”, como diz o poeta amigo Jorge Miguel Marinho. Entre pesos e levezas o passo se faz voo e a vida banal, obra de arte, arte em obra. 

Na des-aventura de se tornar aquilo que se é, com toda a dor e a alegria que isso envolve. Entre encontros e desencontros, palavras e silêncios, o segredo de uma vida boa é aprender a tornar as pedras no caminho em pedrarias do nosso bordado. Cantar o instante tornando-o significativo. Nem sempre feliz, nem sempre rico, nem sempre belo. Cada passo um ponto do bordado, cada pessoa Ariadne a nos dar o fio que medeia o caminho em direção ao centro do labirinto, onde enfim se dará o temido e esperado encontro com nós mesmos.
A imagem pode conter: listras

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quero-quero (Manoel de Barros)


"Natureza será que preparou o quero-quero para o mister de avisar? No meio-dia, se você estiver fazendo sesta completa, ele interrompe. Se está o vaqueiro armando laço por perto, em lugar despróprio, ele bronca. Se está o menino caçando inseto no brejo, ele grita naquele som arranhado que tem parte com arara. Defende-se como touro. E faz denúncias como um senador romano.
Quero-quero tem uma vida obedecida, contudo. Ele cumpre Jesus. Cada dia com sua tarefa. Tempo de comer é tempo de comer. Tempo de criar, de criar. É pássaro mais de amar que de trabalhar.
De forma que não sobra ócio ao quero-quero para arrumar o ninho. Que faz em beira de estrada, em parcas depressões de terreno, e mesmo aproveitando sulcos deixados por cascos de animal.
Gosta de aproveitar os sulcos da natureza e da vida. Assim, nesses recalques, se estabelece o quero-quero, já de oveira plena, depois de amar pelos brejos perdida e avoa doramente.
E porque muito amou e se ganhou de amar desperdiçadamente, seu lar não construiu. E vai conceber no chão limpo. No limpo das campinas. Num pedaço de trampa enluaçada. Ou num aguaçal de estrelas.
Em tempo de namoro quero-quero é boêmio. Não aprecia galho de árvore para o idílio. Só conversa no chão. No chão e no largo. Qualquer depressãozinha é cama. Nem varre o lugar para o amor. Faz que nem boliviana. Que se jogue a cama na rua na hora do prazer, para que todos vejam e todos participem. Pra que todos escutem.
Não usa o silêncio como arte.
Quero-quero no amor é desbocado. Passarinho de intimidades descobertas. Tem uma filosofia nua, de vida muito desabotoada e livre.
Depois de achado o ninho e posto o ovo porém, vira um guerreiro o quero-quero. Se escuta passo de gente se espeta em guarda. Tem parenteza com sentinela. Investe de esporão sobre os passantes. E avisa os semoventes de redores.
Disse que pula bala. Sei que ninguém o desfolha. Tem misca de carrapato em sua carne exígua. Debaixo da asa guarda esse ocarino redoleiro pra de-comer dos filhotes.
De olhos ardidos, as finas botas vermelhas, não pode ver ninguém perto do ninho, que se arrepia e enfeza, como um ferrabrás.
Passarinho de topete na nuca, esse!"
(In: Pequena história natural)
A imagem pode conter: pássaro e atividades ao ar livre

sábado, 15 de julho de 2017

Anima e animus

"Uma das funções do devaneio é libertar-nos dos fardos da vida. Um verdadeiro instinto de devaneio é ativo na nossa anima; é esse instinto de devaneio que dá à psique a continuidade do seu repouso. A psicologia da idealização é aqui nossa única tarefa. A poética do devaneio deve dar corpo a todos os devaneios da idealização. Não basta, como costumam fazer os psicólogos, designar os devaneios de idealização como fuga para fora do real. A função do irreal encontra seu emprego sólido numa idealização bem coerente, numa vida idealizada, acalentadora no coração, que dá um dinamismo real à vida. O ideal de homem projetado pelo animus da mulher e o ideal de mulher projetado pela anima do homem são forças de união que podem superar os obstáculos da realidade. Amamos em toda idealidade, encarregando nosso parceiro de realizar a idealidade tal como a sonhamos. No segredo dos devaneios solitários animam-se, assim, não sombras, mas clarões que iluminam a aurora de um amor." (Bachelard, A poética do devaneio, p. 70)

Imagem: Jose Ramon Diez Rebanal, Centauro y ninfa

sábado, 8 de julho de 2017

Beira-mar novo

Riacho de areia, este clássico popular do Vale do Jequitinhonha resgatado pelo saudoso Dércio Marques, é uma canção que me arrebatou desde a primeira vez que a ouvi, num show em algum Sesc da vida, há muitos e muitos anos... Tantos que nem me lembro direito as circunstâncias, tempo, espaço, companhias... É como se tivesse nascido com ela no peito...
Ela já me acompanhou em momentos de angústia, saudade, melancolia, desespero... Também de alegria, amor, beleza, entrega... Me ajudou a voltar a ser rio quando perigava virar pedra... Seguiu comigo no caminho de me tornar canoa... Continua me acompanhando nas travessias à terceira margem, em direção ao grande Mar, La Mar... Pra onde um dia retornarei.
"Vou descendo rio abaixo
Numa coisinha de nada
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de areia"


Riacho de Areia-Beira-Mar, por Dércio Marques (Sr Brasil - 05/04/2012)
Tenho em mim
o tempo
da flor de pedra
A carne que me forma
a pétala que me desabrocha
o pólen que me fecunda
sonham seus mares nas águas
turquesas
Emimesmados titicacas
medusam,
sinto a pulsação de riachos
sob a pele espelhada

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Poema e bordado: Tamara Castro, 2015
Represei sóis e luas com medo de entornar sentidos e pender de vez a balança dos secos e molhados.
Busquei me entorpecer de burburinho diário, tarefas monótonas, ações pulsantes, palavras e cantos pra não ouvir o silêncio grito que desce na distância tecelã de desacontecidos.
Desatar nós dói, na tarde que cai dói mais. Da pele crua difícil se arranca a lembrança. E ao contrário do que deveria, não, não podia. Pra silenciar a mudez da carne, tão quente, tão fria.
Sem planos, promessas, palavras ou presentes. O que anseio também não sei, se compõe em outro tempo-espaço, em um lá, nos campos de névoa e esquecimento.
Sei, sinto, o que preciso é impreciso, vaga no pulso inconstante, nas marés que me navegam.
Sei, sinto, me buscar é preciso e pra isso bússolas são imprecisas.
O rumo no breu sem lua se traça em silêncio por dentro. Meu trabalho é calar e ouvir.


(Tamara Castro, 2017)


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Bordado: 
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