quinta-feira, 8 de junho de 2017

Filha de siri...

Nani-siri com uns 3 aninhos. Tínhamos acabado de chegar a Paraty e ela doida pra ir à praia. O dia estava chuvoso e ficamos na preguiça conversando na praça da Matriz, esperando o sol dar as caras. E a Nani, "vamo pa paia, paia, paia, paia...". A gente, "calma, filha, já já vamos..." Passa o tempo e ela não desiste, "paia, paia, paia"... Até que, sem mais, encara uma poça no meio da rua e... tchibum!!!

domingo, 9 de abril de 2017

No caminho

Questionar esse "vencedorismo", pensamento nefasto que nos é impingido desde o berço (ou talvez desde o útero), é, pra muitos, coisa de louco. Mas como diz a canção, "mais louco é quem me diz / e não é feliz". E ser feliz também não é homogêneo, válido pra todos. O que me faz feliz não te faz feliz. A gente vai construindo nossos valores de bem e mal, nossas metas e motes ao longo da travessia. Alguns ficam, fiando o caminho labiríntico. Outros se transformam, se libertam, nos libertam, viram pássaro, saudade, ou pedra, arrependimento, mágoa... Prefiro pensar assim, no caminho, como os peripatéticos. Se a gente carrega coisa demais nos ombros, deixa de ciganar, endurece e emburguesa.
Meu fio de ariadne quem me dá é minha memória menina que me contou meu pai. Quando eu era bem pequena, ele me fez a pergunta inevitável: o que você quer ser quando crescer. E, dizia ele, eu respondi, de imediato: quero ser feliz. É, pai, não é nada fácil. Ser feliz hoje é bem menos - ou bem mais? - que era quando eu tinha 20 anos... Sigo no caminho.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017


Canção que me lembra a infância... A voz da minha mãe atualizando raízes vindas de longe, d'além mar... Estranhas palavras nos formam.

Metafísica tupi

"A sagrada missão da morte

Uma vida decompõe-se
quando ela dá lugar a um novo momento de si mesma.
A essa gloriosa transformação

dá-se o nome de ‘morte’.


No entanto, essa palavra está repleta de medo e desinformação.
Grande parte da humanidade
Confunde morte com aniquilação,
quando na verdade ela é a Deusa da passagem,
do desagrupamento da matéria
tecida de sonhos e crenças.


É o momento em que a natureza interna do ser
se refaz, indo preparar-se para novas possibilidades.
Cada ser encantado, cada elemental
que constitui o corpo físico
retorna à sua natureza.


O que é da terra retorna à terra.
O que é da água retorna à água.
O que é do ar retorna ao ar.
O que é do fogo retorna ao fogo.


No entanto, a consciência que se utilizou das vestes
corporais
que os seres da natureza teceram,
muitas vezes está repleta de memórias, crenças, hábitos
difíceis de serem libertos
para que ela retorne à sua verdadeira essência luminosa.


É por isso que urge estudar, compreender
e integrar a natureza ancestral do ser,
e viver de acordo com sua luz."


(Kaká Werá, O trovão e o vento)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Legado

"Os saltimbancos" fazem parte da memória musical de muita gente da minha geração, dos filhos da ditadura, ou melhor, dos seus combatentes que não morreram na tortura ou no confronto. Lá em casa não fugimos à regra, ouvimos muito esse discão, em que o clássico alemão "Músicos de Bremen" ganha ares e vozes brazucas, contando às crianças de todas as idades uma história de resistência à opressão por meio da união dos mais fracos, que juntos se descobrem fortes. 
Essa lição se tornou mote de vida pra mim. Todos juntos somos fortes, não há nada pra temer. 
Ainda que tenhamos discordado em relação à atual situação política - a gente dizendo que é golpe, ditadura em novos moldes, meu pai dizendo que não sabemos o que é ditadura -, o que fica pra mim é o essencial: o exemplo de pessoas que nunca se conformaram com as injustiças e ensinaram os filhos a ir além dos lugares comuns e dos preconceitos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ao meu pai, com amor e saudade

"a vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios"  (C. G. Jung, Cartas)

A montanha encantada dos gansos selvagens (Rubem Alves)

Havia, certa vez, um bando de gansos selvagens… É preciso dizer que eram selvagens, para não confundir com os gansos domésticos. Gansos domésticos têm medo de voar, não gostam das alturas, preferem viver fechados em cercadinhos de tela, desde que seus donos lhes deem milho e verdura picada.
Ah! Como são diferentes os gansos selvagens. Não sabem o que é ser bicho de um dono. São livres. Voam muito alto. Viajam para lugares desconhecidos, distantes, ainda que isso seja perigoso…. São mais magros: devem ser livres para poder voar. E os seus olhos são diferentes.
É que eles viram estrelas e pores-do-sol que os gansos domésticos não podem ver.
Nossos gansos eram selvagens. Viviam livres, sem dono, numa linda planície . Havia florestas, e o cheiro das árvores, pelas manhãs, era gostoso. Seus companheiros eram os outros bichos que amam a liberdade: veados, esquilos, sabiás, pintassilgos, borboletas, abelhas…
No centro da planície havia um lago.
Era ali que os gansos brincavam. Era ali que eles ficavam mais bonitos. Todo o mundo sabe que os gansos são desajeitados, bamboleantes e engraçados na terra firme. Mas na água ficam serenos e calmos, como os navios…
Mas nem tudo era bom. Nada é perfeito. Lá viviam eles, alimentando-se de bichinhos e brotos tenros de verdura. Botavam seus ovinhos, chocavam gansinhos e os gansinhos cresciam….
Às vezes o calor era demais. Ou frio demais. E havia os caçadores, com suas espingardas, dando tiros, rindo quando uma ave morria…
Foi ali que nasceu um gansinho, bem pequeno, menor que um ovo. Tinha de ser. Pois é dentro dos ovos que as gansas botam, que os gansinhos se formam, a pouco e pouco.
Seu pai lhe contou no ouvido, como num segredo, o nome que havia escolhido para ele.
Não…..não foi Roberto, nem Ricardo, nem Dirceu… Foi Cheiro-de-Jasmim."Porque todo mundo que sente o cheiro de jasmim sorri, feliz… Quero que meu filho seja feliz… quero que ele faça os outros felizes", disse o papai Ganso.
"Se o pai ama o filho, o nome do filho deve ser algo que o pai tira do fundo de seu coração."
Havia muitos nomes lindos de gansos: Chuva-e-tarde-de-verão… Sombra-de-árvore… Liberdade… Voo-Alto… Amigo… Brilho-da-lua, etc.
Cheiro-de-Jasmim cresceu como todos os outros gansinhos. Não fez nada diferente. Aprendeu a andar, aprendeu a nadar, experimentou o calor e teve que se abrigar do frio, tremeu de medo ao ouvir o barulho das armas dos caçadores…
Mas havia algo de muito especial…. Ele gostava das horas que todos os gansos se reuniam, quando o sol ia se pondo… O sol se refletia, dentro do lago. Parecia uma fogueira… E Cheiro-de-Jasmim não entendia por que é que a água do lago não apagava o fogo do sol, lá no seu fundo… Esta era a hora em que os velhos se punham a contar estórias. E falavam especialmente das montanhas mágicas…Montanhas mágicas. Elas podem ser vistas lá longe, justo onde o sol estava se pondo. Eram altas, misteriosas, encantadas, A primavera durava sempre..não havia calor nem frio demais.E havia um fruto encantado, vermelho como o sol e que, se comido, fazia com que os gansos fossem jovens para sempre. Até os velhos e aleijados voltavam a ter os corpos de outrora, perfeitos, fortes, belos…..E, sobretudo, lá não havia caçadores.
– Se as montanhas mágicas são tão maravilhosas, por que é que não nos mudamos para lá? – perguntou Cheiro-de-Jasmim.
– É que elas são altas demais – respondeu o velho ganso, contador de estórias. Para se chegar até lá, o corpo tem que ficar leve, muito leve… é preciso ser como uma libélula... um papagaio flutuando ao vento… Somos pesados demais… sabem por quê? É que temos medo de tanta coisa. É o medo que nos faz pesados. E porque somos pesados ficamos com as caras tristes, cansadas... Quem tem cara triste não pode voar… mas quando o tempo vai passando, os gansos vão ficando leves, até que chega o dia do grande voo…
Cheiro-de-Jasmim olhou para o seu pai. Olhava este, para as montanhas encantadas. Já não havia mais o brilho do sol. Mas o brilho da lua as tornava mais belas ainda. E ele notou que seu pai, outrora pesado e sério, estava ficando mais leve.  Pela primeira vez ele sentiu uma tristeza  de pensar que, um dia, eles se separariam. Mas, por que partir, se a vida é tão boa?
– É necessário partir para continuar a viver, respondeu o velho ganso, adivinhando os pensamentos que passavam pela cabecinha de Cheiro-de-Jasmim…
– Quando se fica mais leve, fica difícil viver aqui. A comida, muito pesada, faz mal. O ar, muito pesado, faz mal. O frio dói nos pulmões. As coisas mais leves são mais belas e sobem mais. Mas são mais frágeis. Precisam de um ar diferente. E por isso é necessário partir para as montanhas encantadas… Um dia, o coração diz que é preciso partir para continuar a viver. Quando isso acontece, chegou a hora da despedida.
O tempo passou. Cheiro-de-Jasmim cresceu. Vieram seus filhos. Ele ficou pesado como todos os outros. Enquanto isso seu pai ficava mais leve… Até que chegou o dia do adeus. Nada mais segurava aquele ganso, mais selvagem e mais leve do que nunca. Estava pronto para a viagem misteriosa. Claro que havia algo que o prendia. O amor pelo lugar, o amor por todos. E especialmente, o amor por Cheiro-de-Jasmim. Como ele o amava! Cheiro-de-Jasmim chegou-se ao pai, abraçou-o e perguntou:
– Quando você partir, vai sentir saudades? O velho ganso se calou.Cheiro-de-Jasmim continuou:
– Não chore… eu vou abraçar você…
E assim, ficaram juntos, muito tempo, pensando que a vida era tão boa, tão bonita… O vento veio de mansinho, sem nenhum barulho. O velho ganso nem precisou bater as asas.  Ele estava leve, leve…. e ele partiu para a montanha encantada.
Todos se reuniram, como sempre faziam quando isso acontecia… Todos falavam da saudade e choravam… O mundo já não era o mesmo… Mas Cheiro-de-Jasmim podia jurar haver ouvido os risos de seu pai, tais como ouvira muitos anos atrás, quando era jovem e belo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ancestralidade

Conversa recente do Pedroca com vovô José.
Vô: - Pedro, um dia desses vou te contar sobre a história da minha família, meus avós, bisavós...
Aquilo que me contaram e de que me lembro.
Pedro: - Ah, que bom, vovô! Eu tô mesmo precisando saber mais sobre os homens das cavernas!