domingo, 3 de junho de 2018

Höröya: canto luta


"Höröyá
Autonomia
Liberdade
Dignidade em corpo, alma, espírito
Que alma tem um povo de um passado sem glóriaQ que pode esse povo privado de história?
Que corpo tem futuro, passado, presente
Se a herança é a dor, chicote, corrente
Na alma, na mente?
Servindo à ganância alheia
vivendo, morrendo descrente
nesse pedaço de terra amontoado de gente.
Minoria luta, maioria consente.
Minoria luta, maioria consente?
Se de sangue e estupro somos feitos
Mas então quem somos?
O bandeirante, o missionário, ou o índio?
O capitão do navio negreiro, o capanga, o capitão do mato, o escravocrata, ou o quilombola, o capoeira?
O que explora e destrói, ou o que cultiva a terra?
Ou somos nós a terra?
Essa terra nação diversa
sem eixo nem tumba
dos filhos órfãos que aqui pari
Pátria amada
de passado em diante tem futuro?
Que futuro tem?
Pra quem?"

domingo, 22 de abril de 2018

Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes

"Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes
Não digam que parto amanhã
Porque hoje estou ainda chegando.
Olhe bem, a cada instante estou chegando
Para vir a ser botão de flor em ramo de primavera
Para ser passarinho de asas frágeis
Aprendendo a cantar em meu novo ninho,
Para ser lagarta na corola da flor,
Para ser gema oculta na pedra.
Estou ainda chegando para rir e chorar,
Para sentir medo e esperança
O ritmo do meu coração é o nascimento e morte
De tudo o que vive.
Sou a libélula em metamorfose
Em vôo sobre as águas do rio
E sou pássaro que se lança ao ar para engolir a libélula.
Sou rã que nada descuidada
Nas águas claras da lagoa
E cobra que em silêncio se alimenta da rã.
Sou a criança em Uganda, só pele e osso
Minhas pernas como gravetos
E sou o traficante que vende armas para Uganda.
Sou a jovem púbere
Que escapa em uma balsa
E que, violentada por um pirata, lança-se ao mar
Mas sou o pirata ainda incapaz de sentir e de amar
Minha alegria é como a cálida primavera
Que faz florescer toda a Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
Tão vasto que enche os quatro oceanos.
Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes,
Para que eu possa despertar e enfim escancarar
Em meu coração as portas da compaixão."
Thich Nhat Hanh

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ser ou não um limão...

Acordo o Tao na madruga e ele me diz: sente e aquieta para perceber: o que o mundo te apresenta e o que tu fazes diante disso?

Como ensina o senso comum, se a vida te dá um limão, você senta e chora ou faz dele limonada? Qual será a minha escolha? Como ajo e reajo aos limões que a vida me atira? 

O limão é o fato: concreto, real, incontornável. Parafraseando Drummond em “Nosso tempo”, são tão fortes os limões! Mas eu não sou limão e me revolto. Ou sou?

Não posso transformar meu limão em laranja ou morango. Mas posso diante dele me reflessentir, ou me sentipensar, como diria Galeano, e talvez mudar a mim. Por que o limão me causa tal sensação, tal emoção? Haveria outra forma de (re)agir a ele? O que me faria menos infeliz, ou quem sabe, com sorte, mais feliz: ignorar o limão? Tampar o nariz e cair de boca? Desbanalizar a limonada com um pouco de hortelã? Filosofar com sua cara azeda, a la Macbeth: chupar ou não chupar, eis o limão? Transformá-lo em bola e malabalizar com ele?

Não é no que o mundo me apresenta como faticidade, mas sim no que faço com isso é que vive minha pequena cota de liberdade e minha estreita possibilidade de transcendência.


Ah, limões, limões, eis as questões!



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Labiríntico

Viver é andar por planícies e precipícios, multidões silenciosas e desertos ruidosos. Entre toques e pausas, a melodia se faz mais rica e suingada se a gente aprende a dançar com ela, no ritmo de cada pancada, respirando entre as pausas. Essa é a lição que o tambor me dá, na “gravidade das pequenas coisas”, como diz o poeta amigo Jorge Miguel Marinho. Entre pesos e levezas o passo se faz voo e a vida banal, obra de arte, arte em obra. 

Na des-aventura de se tornar aquilo que se é, com toda a dor e a alegria que isso envolve. Entre encontros e desencontros, palavras e silêncios, o segredo de uma vida boa é aprender a tornar as pedras no caminho em pedrarias do nosso bordado. Cantar o instante tornando-o significativo. Nem sempre feliz, nem sempre rico, nem sempre belo. Cada passo um ponto do bordado, cada pessoa Ariadne a nos dar o fio que medeia o caminho em direção ao centro do labirinto, onde enfim se dará o temido e esperado encontro com nós mesmos.
A imagem pode conter: listras

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quero-quero (Manoel de Barros)


"Natureza será que preparou o quero-quero para o mister de avisar? No meio-dia, se você estiver fazendo sesta completa, ele interrompe. Se está o vaqueiro armando laço por perto, em lugar despróprio, ele bronca. Se está o menino caçando inseto no brejo, ele grita naquele som arranhado que tem parte com arara. Defende-se como touro. E faz denúncias como um senador romano.
Quero-quero tem uma vida obedecida, contudo. Ele cumpre Jesus. Cada dia com sua tarefa. Tempo de comer é tempo de comer. Tempo de criar, de criar. É pássaro mais de amar que de trabalhar.
De forma que não sobra ócio ao quero-quero para arrumar o ninho. Que faz em beira de estrada, em parcas depressões de terreno, e mesmo aproveitando sulcos deixados por cascos de animal.
Gosta de aproveitar os sulcos da natureza e da vida. Assim, nesses recalques, se estabelece o quero-quero, já de oveira plena, depois de amar pelos brejos perdida e avoa doramente.
E porque muito amou e se ganhou de amar desperdiçadamente, seu lar não construiu. E vai conceber no chão limpo. No limpo das campinas. Num pedaço de trampa enluaçada. Ou num aguaçal de estrelas.
Em tempo de namoro quero-quero é boêmio. Não aprecia galho de árvore para o idílio. Só conversa no chão. No chão e no largo. Qualquer depressãozinha é cama. Nem varre o lugar para o amor. Faz que nem boliviana. Que se jogue a cama na rua na hora do prazer, para que todos vejam e todos participem. Pra que todos escutem.
Não usa o silêncio como arte.
Quero-quero no amor é desbocado. Passarinho de intimidades descobertas. Tem uma filosofia nua, de vida muito desabotoada e livre.
Depois de achado o ninho e posto o ovo porém, vira um guerreiro o quero-quero. Se escuta passo de gente se espeta em guarda. Tem parenteza com sentinela. Investe de esporão sobre os passantes. E avisa os semoventes de redores.
Disse que pula bala. Sei que ninguém o desfolha. Tem misca de carrapato em sua carne exígua. Debaixo da asa guarda esse ocarino redoleiro pra de-comer dos filhotes.
De olhos ardidos, as finas botas vermelhas, não pode ver ninguém perto do ninho, que se arrepia e enfeza, como um ferrabrás.
Passarinho de topete na nuca, esse!"
(In: Pequena história natural)
A imagem pode conter: pássaro e atividades ao ar livre

sábado, 15 de julho de 2017

Anima e animus

"Uma das funções do devaneio é libertar-nos dos fardos da vida. Um verdadeiro instinto de devaneio é ativo na nossa anima; é esse instinto de devaneio que dá à psique a continuidade do seu repouso. A psicologia da idealização é aqui nossa única tarefa. A poética do devaneio deve dar corpo a todos os devaneios da idealização. Não basta, como costumam fazer os psicólogos, designar os devaneios de idealização como fuga para fora do real. A função do irreal encontra seu emprego sólido numa idealização bem coerente, numa vida idealizada, acalentadora no coração, que dá um dinamismo real à vida. O ideal de homem projetado pelo animus da mulher e o ideal de mulher projetado pela anima do homem são forças de união que podem superar os obstáculos da realidade. Amamos em toda idealidade, encarregando nosso parceiro de realizar a idealidade tal como a sonhamos. No segredo dos devaneios solitários animam-se, assim, não sombras, mas clarões que iluminam a aurora de um amor." (Bachelard, A poética do devaneio, p. 70)

Imagem: Jose Ramon Diez Rebanal, Centauro y ninfa

sábado, 8 de julho de 2017

Beira-mar novo

Riacho de areia, este clássico popular do Vale do Jequitinhonha resgatado pelo saudoso Dércio Marques, é uma canção que me arrebatou desde a primeira vez que a ouvi, num show em algum Sesc da vida, há muitos e muitos anos... Tantos que nem me lembro direito as circunstâncias, tempo, espaço, companhias... É como se tivesse nascido com ela no peito...
Ela já me acompanhou em momentos de angústia, saudade, melancolia, desespero... Também de alegria, amor, beleza, entrega... Me ajudou a voltar a ser rio quando perigava virar pedra... Seguiu comigo no caminho de me tornar canoa... Continua me acompanhando nas travessias à terceira margem, em direção ao grande Mar, La Mar... Pra onde um dia retornarei.
"Vou descendo rio abaixo
Numa coisinha de nada
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de areia"


Riacho de Areia-Beira-Mar, por Dércio Marques (Sr Brasil - 05/04/2012)